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2.1.Cada indivíduo é o dono de seu próprio destino, isto é, cada um por si, não há responsabilidade social – individualismo extremado. Vence o mais apto – é a teoria darwinista [malthusiana] em prática. Só tem valor o “bem sucedido”. O fracassado é desprezível, não merecendo misericórdia, nem compaixão da sociedade, pois não soube construir seu destino. Ele é o único responsável por isso. A sociedade não tem nenhuma parcela de responsabilidade.
2.2.Tudo isso coincide com a ideologia calvinista do “abençoado”, do “escolhido”, do “salvo pela graça”, onde o mérito não tem valor, propiciando e justificando qualquer método para vencer na vida, pois se isso ocorrer é porque ele é “abençoado” e, portanto, o que ele fez foi permitido por Deus. É uma forma mística do maquiavelismo empregado mormente nas atividades financeiras.
2.3.O Calvinismo acha que, desde que o indivíduo aceite Jesus Cristo como seu salvador pessoal e que seu sangue derramado na cruz foi para resgatar nossos pecados, o convertido fica com seus pecados remidos, sem necessidade de reparar o mal que fez e se torna abençoado – o que fizer para o futuro só poderá ser o bem, inspirado pelo Espírito Santo.
2.4.Esse modo cruel de pensar originou o tão propalado “pragmatismo” americano: o verdadeiro, o certo, é tudo aquilo que funciona na prática. Isto é um ponto de vista maquiavélico, pois enfatizando o resultado, desprezamos os meios usados. Não deixa de ser uma Teoria do Conhecimento, pois a verdade é aquilo que “dá certo”, que funciona. É a base doutrinária da doutrina psicológica chamada “Funcionalismo” que tanto influi nos meios pedagógicos com seu lema: “é fazendo que se aprende”, mostrado seu desprezo pela razão.
3.1. Definição. Ideologia baseada no princípio calvinista do “abençoado [salvo] pela graça de Deus”. Ser “salvo pela graça” exclui o mérito [obras], pois, do contrário não haveria “graça” e sim somente “mérito”. As “boas obras” são conseqüência da “graça” e não do mérito.
3.2. O pecador, aquele que pratica más obras, não é isso por seu mérito, mas unicamente porque não recebeu a “graça”. Para recebê-la, basta aceitar Jesus como seu salvador pessoal.
3.3. É uma ideologia mágica que isenta o ex-pecador de reparar o mal que fez, pois, pela “graça”, já está salvo. Nisso reside a incoerência do Calvinismo e, conseqüentemente a do Capitalismo. “Aceitar Jesus como seu salvador pessoal” é a “conditio sine qua non” para receber a “graça”. Isso já se constitui num ato, numa obra, mesmo com características mágicas. A “graça” é concedida a aquele que comete uma obra mágica.
3.4. Podem surgir alegações de que religiões não cristãs adotam o capitalismo, basta citar a usura dos judeus na Idade Média. Mas a ideologia calvinista é a superestrutura religiosa para camuflar a infra-estrutura econômica, a fim de permitir que esse rendoso mercado de capitais pudesse ser praticado por cristãos, o que até então era proibido. No Século XV, quando navegantes portugueses e espanhóis passaram a se aventurarem pelo o Oceano Atlântico, descobrindo o arquipélago de Açores, a Ilha da Madeira e as Canárias respectivamente, os mercadores de Veneza mudaram-se para Holanda. França e Inglaterra, para constituir futuramente as Companhias das Índias Orientais e Ocidentais, visando a tirar de Portugal e da Espanha esse mercado novo, rico de especiarias e outros recursos naturais.
3.5. Já em Veneza, os bancos, instituição financeira de exploração do capital. já vinham em grande prosperidade, gerida tanto por judeus como por cristãos, mas esses últimos tinham o entrave religioso. Esta é a razão da Reforma Calvinista. A Reforma Luterana, já tinha outro objetivo: era libertar o Sacro Império Romano Germânico da interferência papal, o que apenas citamos, mas nada tem haver diretamente com o American Dream e o American Way of Life.
3.6. Essa contradição mostra bem a hipocrisia do puritanismo dos primeiros “pilgrims” que colonizaram a América. Era uma ideologia que apaziguava o sentimento de culpa “pela luta pela vida”, “a sobrevivência dos mais aptos”, a valorização pelo que temos e pelo que aparentamos e não verdadeiramente pelo que somos. Isso legitima o lema de que “cada um é o dono de seu próprio destino”, isentando a responsabilidade social pelo próximo e exalçando o individualismo desenfreado.
3.7. O indivíduo não tem responsabilidade com a comunidade em que vive, não tem que se preocupar com o vizinho. Para aliviar sua consciência, pratica o “assistencialismo”, enquanto mantém ferreamente uma estrutura sócio-econômica de concentração de renda nas mãos de poucos – a má distribuição da renda.
3.8. Essa hipocrisia já foi adotada com achegada dos primeiros “pilgrims” em terras americanas: pregava, liberdade de consciência, de expressão, enquanto adotavam a escravidão dos negros africanos. Os descendentes desses “pilgrims” cinicamente alegam que a escravidão foi adotada nas fazendas das colônias sulistas e não nas do Norte (New England). Mas, não confessam que os grandes traficantes de escravos eram os empresários nortistas.
4 Conseqüências
do
4.1. O cidadão americano, mesmo os não descendentes dos “pilgrims” e dos “pioneers” assimilaram “in totum” ou em parte esses parâmetros culturais.
4.2. É o individualismo inconseqüente que sufoca inteiramente qualquer iniciativa de solidariedade social. A sociedade passa a ser um ser abstrato, não mais o somatório do comportamento, emoções e valores pessoais de cada um que a compõe. Ela não tem a menor responsabilidade pelos desvalidos, Eles são os únicos responsáveis por sua desgraça. Esse valor ético aplaca qualquer drama ético que um cidadão venha ter ao ver um combalido caído sobre o chão.
4.3. Para aliviar as consciências e diminuírem os tributos, surgem as fundações beneficentes que fazem do “assistencialismo”, ou como chamavam os romanos do “clientelismo”, a base demagógica para conseguir votos políticos, adesões, simpatias, além de descontarem esses benefícios do fisco.
4.4. O valor da pessoa não está no que ela é, mas no que tem ou aparenta ter e em sua capacidade de gerar lucro ou para si ou para a empresa em que trabalha. O trabalhador é visto como uma máquina de gerar lucro e não como um ser humano que precisa do trabalho para levar uma vida digna com sua família.
4.5. O conceito de trabalho também é degradado. Não é mais um meio para a pessoa evoluir, sustentar-se, é somente também mais um meio de gerar lucro. O conceito de “carreira”, “profissão”, são substituídos pelo de gerar lucro. Bom não é quem trabalha com gosto e produz bem seu objeto, mas aquele que consegue gerar lucros para aumentar a cotação das ações dos investidores da bolsa de valores. Trabalho que satisfaça o trabalhador com sua arte e capacidade não tem valor se não concorrer para o aumento das ações da bolsa de valores. Não trabalhamos mais pela vocação, mas pelo aumento das cotações.
4.6. Assim como valor do trabalho é substituído pelo valor das cotações da bolsa de valores, o trabalhador o é pelo investidor. As leis trabalhistas que garantem o bem estar o trabalhador não existem. Surgem leis para proteger os investidores para que não aconteça outra crise igual a de 1929. Esses valores estão bem representados no Pragmatismo desenvolvidos por C.S.Peirce, William James e John Dewey. Para essa teoria filosófica do conhecimento, o critério de verdade é relativo aos acontecimentos e não como nas filosofias tradicionais que consideram a verdade absoluta e independente da experiência humana. Constatamos o relativismo e a dependência da experiência humana, portanto subjetivista. Desde que funcione (aumente os valores da bolsa de valores) é verdadeiro. Não deixa de haver um “foetor” maquiavélico: os fins (lucro bursátil) justificam os meios.
4.8. O Estado Mínimo. Estado é a representação política de uma nação organizada. Como nação, entendemos que deva haver identidades: étnica, religiosa, lingüística, de costumes, de hábitos alimentares e de vestuário, e com território definido. Como no mundo moderno, há Estados com mais de uma etnia, língua, religião, há quem prefira defini-lo como a representação política de uma sociedade organizada, com unidade de propósitos e um território definido. Isso implica em um Estado participante que ampare seus cidadãos, na doença, na invalidez, na velhice, na educação, na moradia, na alimentação. Não será um Estado paternalista como os capitalistas chamam-no desdenhosamente, mas um Estado que impeça que uma minoria concentre a renda em suas mãos em detrimento do bem estar social dos demais – O Estado que promova a as leis trabalhistas e a securidade social.
5 Conclusão. O tão propalado “American way of life”, que defende a liberdade de expressão,
de idéias, de consciência, que defende a democracia, a liberdade,
as garantias individuais é uma falácia. Ele já pecou pelo
começo quando fundamentou sua riqueza na escravidão, na
desigualdade de direitos, na concentração de renda na mão
de poucos. Nos EEUU podemos falar o que quisermos, mas os jornais,
rádios e televisões não publicam (veja o exemplo de Hearst, caracterizado no filme “Cidadão Kane”) e quando falamos em praça
pública temos a polícia para agir, como agiu em 1° de maio de
1886, massacrando trabalhadores em Chicago, quando pleiteavam diminuir a
jornada de trabalho de 13 h para 8 h e, em 8 de março de 1857, quando
trabalhadoras em Nova Iorque pediam para reduzir a jornada feminina de 16h para
10h. Elas foram mortas e seus corpos queimados pela polícia dessa
“grande nação defensora da democracia”.
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