DELÍRIO POSSÍVEL E PROVÁVEL
1. As pessoas, que não conhecem Psiquiatria, julgam-na mal ou aos próprios psiquiatras, por assistirem pessoas classificadas como doentes mentais por se queixarem de fatos ou situações reais que ocorrem com eles.
2. Esse raciocínio tacanho levou algumas pessoas precipitadas, como o sociólogo francês Roger Bastides a afirmar que só se é “louco em relação à sociedade em que se vive, como se o diagnóstico psiquiátrico fosse algo relativo que ficasse ao sabor do arbítrio do psiquiatra. O filósofo francês Michel Foucault, homossexual, devasso, usuário de drogas psicodislépticas , tentativa de suicido em 1948, resultando em internação em frenocômio, finalmente falecendo de complicações da SIDA (AIDS) em 1984, criou o conceito absurdo, até aspectos paranóicos persecutórios, de que a Psiquiatria e os psiquiatras estão a serviço dos detentores do poder que querem silenciar quem lhes conteste as opiniões.
3. Essa concepção paranóica persecutória criou tal popularidade entre os anarquistas e os sequazes da Contra-Cultura da New Age, que em 1967, o psiquiatra sul-africano, mas radicado na Inglaterra, adeso a ideologia em voga, escreveu um livreco chamado “Psiquiatria e Antipsiquiatria” que serve de libelo contra a Psiquiatria. A partir de então, essa antipsiquiatria ficou sendo a palavra de ordem de todos intelectualoides (emergentes da área intelectual, semelhantes aos “nouveaux riches” da área sócio-econômica), a ponto de ser aprovada pelo Parlamento Italiano uma Lei, em maio de 1979, que fechavas os hospitais psiquiátricos, inspirado pelo psiquiatra Franco Basaglia, comunista da vertente anarquista de Gramsci. Aqui no Brasil, o deputado Paulo Delgado do PT-MG, irmão do “antipsiquiatra” Pedro Gabriel Delgado, apresentou em 1992 um Projeto de Lei que imitava a de Franco Basaglia. Esse projeto foi rejeitado e em 6 de abril de 2001 foi aprovado o substituto do Senador Sebastião Portella que modificava em muito a proposta inicial (Lei 10216 de 6/ABR/01i, D.O.U. de 09?ABR/01). Como o Ministério da Saúde está infestado de comunistas gramscistas, ele procede de acordo com o Projeto de lei não aprovado e os prosélitos do anarquismo afirmam que a “Lei Paulo Delgado” é que impera!
4. O absurdo acima descrito resulta da conjunção da ideologia esdrúxula e contestadora da Contra-cultura com a ignorância de conceitos psiquiátricos. Em Psicopatologia geral, quando estudamos os delírio, uma dos conceitos fundamentais que aprendemos é a distinção entre: a) delírio impossível; b) delírio impossível, porém improvável e c) delírio possível e provável.
5. DELÍRIO IMPOSSÍVEL. Um paciente afirma que está sendo perseguido pelos selenitas (habitantes da lua); que há um rato dentro de seu abdômen roendo suas vísceras; que Deus apareceu-lhe e lhe ordenou que destruísse os pecadores; que Santa Terezinha ora lhe aparece com sua imagem normal, ora com a imagem do diabo. Qualquer pessoa com higidez mental afirmará que esses fatos são impossíveis. Portanto, será fácil, para um leigo em Psiquiatria aceitar que essa pessoa é doente mental.
6. DELÍRIO POSSÍVEL, MAS IMPROVÁVEL. O paciente se sente perseguido pela Polícia, embora não tenha nenhum passado de delínqüência; a Polícia, como órgão investigador, é possível o estar investigando; ele pode estar sendo considerado como suspeito de algo ato ilícito, embora não tenha cometido nenhum. Isso é possível, mas pouco provável. Pois a Polícia dificilmente suspeitará de pessoal sem nenhum envolvimento com ilicitude. Mas, infelizmente, há registros de pessoas inocentes que foram presas e condenadas injustamente. Esse é um sintoma patológico que pode causar dúvida em um leigo. Suponhamos que um doente mental, que já está com seu senso crítico diminuído, receba de um traficante um pacote para ele guardar. Ele, devido a sua falta de crítica, não percebe o risco que corre e pode aceitar guardar o pacote. A Polícia passa a procurá-lo por suspeita. Ele não participou voluntariamente do ato ilícito, foi vítima de falta de crítica, seu contato com a realidade (outro dado usado para a avaliação da higidez mental) estava perturbado. O que o leigo, os anarquistas e sequazes da contra-cultura não entendem ou fingem não entenderem é que apesar da Polícia estar realmente no encalço do paciente, ele não deixa de ser doente mental. Primeiramente ele estava com uma baixa do senso crítico e em segundo lugar é preciso que se examine qual a “causa” que o levar a suspeitar de estar sendo perseguido pela polícia. Se ele responder porque ele pertence a uma minoria étnica, cultural ou religiosa, demonstra alienação da realidade. A causa real foi seu envolvimento involuntariamente com o tráfico de drogas e não seu “status” social. Ele está fora da realidade ou pelos menos em conflito com ela, embora seu delírio coincida a ela. O que motiva o psiquiatra a classificá-lo como doente mental é esse conflito ou alienação da realidade ou é usar o pensamento mágico em vez do lógico.
7. DELÍRIO POSSÍVEL E PROVÁVEL. Esse é o mais polêmico que o que mais contribuiu para a formação das opiniões que denigrem a Psiquiatria. O delírio mais didático é o delírio de ciúme do alcoólatra. O alcoólatra crônico já produziu muitos conflitos com seu cônjuge, já está com aspecto físico repelente e, ser for homem, impotente. Isso desenvolve nele um delírio de ciúme, mesmo sem prova material, só por conjectura. Por exemplo, citamos um alcoólatra que ao deitar-se na cama com a esposa, ouviu o vento balançar as roupas que estavam no varal; nesse momento sua esposa levanta-se, vai ao banheiro para urinar; quando ela volta, novamente ele ouve o vento balançar as roupas no varal. Ele conclui que o amante dela balançou as roupas no varal para avisa que chegar; ele foi ao banheiro, fingindo que urinaria, para acender a luz que era um sinal já combinado, indicando que ele estava em casa; o amante balançou as roupas na corda para mostrar que entendera o sinal. Outro exemplo. Um esquizofrênico afirma que sua esposa o traia porque era bonita e trabalhava como secretária em uma firma. Usava com argumento a beleza dela e a crença popular que toda secretária é amante do chefe. Ele não tinha nenhuma prova material de sua infidelidade. Se as esposas desses dois pacientes lhes fossem infiéis, os leigos, os anarquistas, os contestadores da contra-cultura acusariam a psiquiatria e os psiquiatras de estarem aliados as esposas e diagnosticavam os queixosos com “rótulos” de doente mental para silenciarem suas queixas. Outro exemplo. Um esquizofrênico agrediu a mãe pelo fato de ela estar comento dois caquis de uma dúzia que sua esposa comprara na feira. Isto é um exemplo típico de uma ocorrência delirante. Os leigos, anarquistas e adeptos da contra-cultura, por desconhecerem esses dados psicopatológicos levianamente acusam a psiquiatria e os psiquiatras de se aliarem ao poder.
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