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CONSIDERAÇÕES
SOBRE DIALÉTICA,
1. Ouvi,
certa vez, pela Rádio Rio de Janeiro (que se anuncia como sendo “espírita”),
programa apresentado por um senhor e duas senhoras que se confessavam também
como “espíritas” e afirmam que o programa também era “espírita”.
O senhor invectivava contra a Igreja Católica, atribuindo-lhe muitos
conceitos que nunca foram somente dessa confissão, mas que pertenceram a
Igreja Cristã de modo geral, mormente na parte européia de
cultura greco-romana, antes mesmo do Cisma. Igreja Católica apareceu
somente depois do movimento da Reforma: foi a parte da Igreja Cristã do
Ocidente que não aderiu a esse movimento.
2. Ele
afirmava que para o Espiritismo não havia o “mal”, mas
somente o “bem”. O “mal” era apenas a ignorância.
Esse narrador demonstrou poucos conhecimentos de princípios de ética.
Uma das características humanas é o senso ético e este
consiste justamente em distinguir o “mal” do “bem”. Ele
afirmava que entre as deidades pagãs, como as da Índia, as do
Budismo chinês, que representavam o “mal”, na realidade não
eram entidades más, mas um ensinamento para nos lembrar que a ignorância
poderia causar o “mal”. Essa posição de monismo ético
é comparada com dois fenômenos físicos: o frio e a escuridão.
O frio não existe “em si”. Ele é apenas a ausência
de calor, assim como a escuridão é a ausência de luz. Objetivamente
essas duas entidades físicas não existem, mas subjetivamente sim.
A prova é que todas as línguas têm vocábulos para os
conceitos de “frio” e de “escuridão”. Quando uma
pessoa diz “sentir frio”, fisicamente ela está sentindo
perda de calor. Quando ela diz que está escuro, na realidade física,
ela está notando ausência de luz. As pessoas sadias fisicamente sentem “frio”
(perda de calor) e “calor” (aquisição de calor); Como
também distingue “luz” de “escuridão” (ausência
de luz). Portanto, o indivíduo “eticamente” sadio distingue
o “mal” do “bem”. A não distinção
entre o “mal” e “bem” ou é comportamento “animalesco”,
ou já é patologia.
3. Se
uma das condições humanas é distinguir o “bem”
do “mal”, o que na realidade se passa é a percepção
da “existência do bem” e da “inexistência do bem”,
sendo externado daquele modo. Isso em linguagem muito erudita abrange a área
de ética e a da metafísica. A “inexistência do bem”
é também um universal linguístico e em todas as línguas
há uma palavra equivalente a “mal”. O narrador ou é ignorante
em assuntos teológicos, ou leviano, ao afirmar que foi a Igreja Católica
que “inventou” o dualismo ético.
4. Se
o Espiritismo é eticamente monista, isso não significa que as
pessoas não vivenciem o “mal”. Quando alguém que, se
sente ofendida por outrem, resolve vingar-se de seu pretenso ofensor, ele está
praticando o “mal”. É patente a oposição
entres as virtudes de um lado e os vícios e os pecados de outro. Esse
conceito é um “universal”: existe em todas as culturas.
5. Quando
ele acusou a Igreja Católica de ser a responsável por esse
dualismo de “bem” e “mal”, demonstrou profunda ignorância
da História da Igreja Cristã. Na Antiguidade do Oriente Próximo
e do Oriente Médio era comum esse dualismo. No Judaísmo havia uma
entidade benfazeja chamada de “Ruach” e outras malfazejas como “Dibuk”,
“Lilith”. Foi na Pérsia, com o Zoroastrismo e, mais tarde,
com o Maniqueísmo, que esse dualismo ético tornou-se bem
acentuado. Para essa cultura havia, no Universo, duas Potências: uma má,
“Ormuz”, e outra boa, “Mazda”. A cultura greco-romana
assimilou essas idéias. O deus Midras foi identificado com Apolo. A idéia
de conflito entre o “mal” e o “bem” não é
criação da Igreja Católica como afirmou o apresentador,
mas uma herança da cultura do Oriente pela assimilação de
conceitos.
6. Esse
dualismo ético foi tão forte na Cultura Ocidental, que, no início
do Romantismo, formou o conceito de “dialética” – o
eterno conflito entre opostos, resultando numa síntese que gera em si
seu próprio oposto. Esses palestrantes, oradores e escritores (mesmo
aqueles afirma que sua obra é “mediúnica”) espíritas
deveriam ter uma formação filosófica mais abalizada, a fim
de não sincretizar o Espiritismo com outras doutrinas. No programa
referido, os narradores faziam indiretamente apologia de conceitos pagãos.
A Federação Espírita Brasileira lançou um DVD sobre
a vida de Allan Kardec e, durante a
apresentação, o narrador afirma que a “dialética
espírita” não era “idealista” como a de Hegel e
nem “defendia a revolução” como a de Marx. Como
explico abaixo, a dialética é uma concepção que
nega a existência de um Deus providente, o que é contrário
ao Espiritismo. Então, não pode haver uma “dialética
espírita”. Quem formulou esse DVD confundiu uma posição
doutrinária metafísica, com a própria Metafísica. Para
o Espiritismo, o Universo e tudo que há nele são “criaturas”
de um Ser Providente. Elas não são formadas ao acaso dos
conflitos. Essa herança de conflito entre o “bem” e o “mal”
existe aqui no Ocidente. O Espiritismo eticamente é monista, só existindo
“em si” o “bem”, mas isso não impede que
subjetivamente as pessoas experimentem o “mal”, da mesma forma que
o fazem em relação ao “frio” e ao “calor”.
7. É
necessário que façamos uma análise do conceito de “dialética”,
pois ele é a base de muitas posições dualista, que não
o deveriam ser. O apresentador, acima citado, demonstrou não ter
conhecimentos profundos desses conceitos, levando a fazer apologia de religiões
pagãs em detrimento do Cristianismo.
8. A
palavra grega “dialética” significa etimologicamente do
grego “dialektike”(discussão). “Em nossos dias,
utiliza-se bastante o termo ‘dialética’ para se dar uma aparência
de racionalidade aos modos de explicação e demonstração
confusos e aproximativos. Mas a tradição filosófica lhe dá
significado bem preciso”(1).
9. Ela
tornou-se vulgar através da “dialética idealista” de
Hegel (1770-1831) e da “dialética materialista” de Marx (1818-1883).
Os termos “dialética” ou “dialético” tornaram-se
generalizados e vulgarizados, sendo empregados como filosofia de vida, método
de estudo ou de desenvolvimento de idéias.
10. “Em
Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se
eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades
inteligíveis ou idéias. Ele emprega o verbo “dialeghestai”
em seu sentido etimológico de dialogar (...)” (2). “Em Aristóteles,
é a dedução feita a partir de premissas prováveis”
(3). Hegel define “dialética”assim:
“Chamamos de dialética o movimento racional superior em favor do
qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam
espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são,
encontrando-se eliminada a hipóteses de sua separação"
(4). “Marx faz da dialética um método. Insiste na
necessidade de considerarmos a realidade socieconômica de determinada época
como um todo articulado, atravessado por contradições específicas,
entre as quais a da luta de classes” (5). Lembremos que Hegel formou-se
em pastor de Confissão Luterana, mas afastou-se dessa igreja, abraçando
o paganismo germânico do Romantismo. Marx de família judia que se
convertera ao Luteranismo, não era nem uma coisa, nem outra, professando
o materialismo dos intelectuais do século XIX. O “conceito de dialética”,
quer o adotado por Hegel, quer o por Marx, retratava uma forma de “conflito
cósmico”, enquanto para Platão e Aristóteles as “diferenças
cósmicas” não eram conflitos, mas degraus de ascensão
da Alma.
11. Vários
fatores do ideário de sua época levaram Hegel a desenvolver sua “dialética”
como se originando em um conflito e terminando com a solução
desse, mas gerando um novo conflito. O que mais lhe influenciou foi a análise
que fez do verbo e do substantivo alemães “aufheben” e “Aufhebung”.
Evidente, que não são essas duas palavras que formaram os pilares
de sua doutrina. Elas têm raízes no pensamento materialista da época,
do Romantismo, doutrinas da época em que viveu (“espírito
da época” ou “Zeitgeist”) que precisavam explicar a
vida, o mundo e suas transformações sem uma Providência
Divina.
12. “Aufheben”
significa levantar, suspender, elevar, alçar, sempre com sentido ativo. Por
extensão e figurativamente, “extinguir”, “acabar”,
“findar”. Pois a idéia de “suspender” pode ter
correlação com “extinguir’. O substantivo “Aufhebung”
significa, portanto, levantamento, suspensão, elevação, alçamento,
extinção, término, fim. Hegel tomou esse vocábulo
para exemplificar que todo conceito trazia dentro de si sua “oposição”,
um “conceito antagônico”, sua “negação”.
O conflito entre esses dois opostos formaria um novo conceito que já traria
dentro de si sua “negação”. Esse conflito ficou bem
exemplificado com a tríade: tese, antítese e síntese. Essa
última seria uma nova tese que já traria sua antítese. Seria
um processo infinito, dispensando a Providência Divina para a criação
e término de tudo que há no Universo. Essa doutrina contraria o
Princípio de Contradição do Pensamento Lógico (Conceitos
opostos não podem se coadunarem).
13. Aufheben
é uma palavra composta. Possui uma raiz (heben) e prefixóide (auf).
“Heben” é um verbo ativo. Se um lápis estiver caído
sobre uma mesa e o levantarmos, o colocarmos de pé apoiado em sua base, “nós
o levantamos” (heben, devidamente flexionado no passado). Se uma pessoa
estiver sentada e levantar-se, ela “heben” (com a flexão
gramatical e o pronome reflexivo). O verbo “heben” significa
levantar, mas sem perder o contado com a superfície onde estava.“Auf”
é uma preposição locativa superesiva, significa algo que
está encima e em contato com uma superfície. Já como
prefixóide, significa uma idéia locativa delativa, isso é,
aquilo que se desprende, procede de uma superfície. “Aufheben”
é levantar-se (ou ser levantado), abandonando a superfície de
contato: elevar, suspender, alçar, podendo se empregado ativa e
reflexivamente. A idéia de elevar, suspender pode ser estendida para
outros conceitos semelhantes, interrelacionados. É uma operação
analógica. Por exemplo: se uma criança está correndo em chão
molhado, um adulto pode suspendê-la, elevá-la, alçá-la,
a fim de que ela não escorregue e caia. Com isso ele interrompe,
extingue sua corrida. As idéias de suspender, elevar que significam exalçar,
podem significar também o oposto: extinguir, interromper.
14. Isso
não nos parece que a palavra “aufheben” traga já dentro
de si sua “negação”, como dizia Hegel. O conceito de “negação”
que surgiu foi por extensão. Para nós, Hegel não fez
corretamente uma interpretação semântica.
15. Conclusão.
O apresentador acima citado, embora estivesse certo em mostrar o monismo ético
do Espiritismo, não soube fundamentar-se corretamente em Filosofia,
desviando-se do assunto e chegando à apologia de doutrinas pagãs.
Outros espíritas que afirmam haver uma “dialética espírita”
estão fazendo uma moxinifada de conceitos éticos, cosmológicos
e de antropologia filosófica. Concluo que há falta de preparo básico
para palestrantes, oradores, apresentadores espíritas. No movimento Espírita
Brasileiro, há pessoas que se jactam de que no Espiritismo não há
professores. Para nós, esse é o ponto frágil desse
movimento. Palestrantes, oradores, pregadores, escritores não podem ser
improvisados, necessitam de curso básico de formação.
1.
2. e 3. 4. e 5.Dicionário Básico de Filosofia, Japiassu, H. e
Marcondes, D.; 1ª Ed; Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editor; 1990.