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O HODIERNO ESPÍRITO DO TEMPO

 

1.      Definição.

Essa expressão é usada em Filosofia e áreas afins para designar o conjunto de tendências que, durante determinado período histórico e espaço geográfico, dominam todas as áreas do pensamento e sentimento da Humanidade, tais como: ciência, filosofia, filologia, lingüística, música, artes (pintura, escultura, literatura, arquitetura), política, religião, ética, estética, família, moral e relações sociais. 

 

2.      Etimologia.

      Goethe usou a expressão em alemão “Geist der Zeit” e Herder, baseado nesse, cunhou o neologismo “Zeitgeist” [alemão: Zeit, s.f. – tempo, época; Geist, s.m. – espírito, fantasma]. Segundo, o Prof. Evaldo Pauli [carta de 25 de abril de 1995]: “Também em princípio espírito do tempo poderá ser receber um sentido técnico, se for adotada a ideologia monista (panteísta) de Fichte, Schelling, Hegel, do Romantismo em geral. Hegel fala em Espírito Objetivo (Objetive Geist), de que trata ma Enciclopédia de Filosofia, § 438 ssx. Em qualquer História da Filosofia encontrará explicado este sentido de Hegel.” (...). “Pode-se aproximar Zeitgeist ao establishment dos ingleses.”

 

3.      Evolução histórica.

Em todas as épocas da humanidade, houve um “espírito do tempo”. Na idade Média, era o dogmatismo e o misticismo religiosos, mesclados com resíduos ideológicos do judaísmo e do paganismo, que eram vivenciados  como superstição. No Renascimento, foi a exaltação da cultura grega, do luxo, do rebuscado, da perfeição objetiva. Na era vitoriana , o moralismo hipócrita, a vergonha do corpo físico.

Para entendermos o “Zeitgeist” hodierno, teremos que fazer uma breve recapitulação histórica.

Até o século XV, o mundo europeu ficava limitado às terras que margeavam o Mediterrâneo, o Mar do Norte, o Báltico, e ao Oriente Próximo. Houvera anteriormente algumas expedições terrestres para o Extremo Oriente e Portugal começava a desbravar o Oceano Atlântico. Essas conquistas, contudo, ainda estavam muito recentes historicamente para influírem no pensamento da época. Os objetos usados pelas pessoas eram produzidos individual e artesanalmente: não havia ainda a produção mecânica, as esteiras rolantes das linhas de montagem. Os livros eram copiados manualmente pelos abades copistas – a revolução de Gutemberg estava em gestação. Nada se movia sozinho – era necessária a impulsão humana ou animal. Navios e moinhos já eram movidos a vento, porém o ser humano ficava a mercê desse fenômeno, pois não podia controla-los ou prevê-los. O tempo era marcado limitadamente pela ampulheta movida pelo homem ou de modo impreciso pela posição dos astros.

A partir desse século, portugueses, depois espanhóis, franceses e ingleses passaram a levar para a Europa informações, hábitos e costumes (café, chá, batata, chocolate, tabaco) de outros povos e partes do mundo: para essas, levavam o cristianismo e línguas da Europa. O mundo dilatou-se. Não era mais possível considerar a Terra plana. Os povos e culturas deste planeta passaram a influir-se mutuamente. Essas descobertas tiveram papel preponderante na modificação do pensamento Europeu. A invasão de Constantinopla pelos turcos provocou a migração dos sábios bizantinos para a península itálica. A Europa passou a dominar a natureza. Apareceram as máquinas simples: alavancas, roldanas, rodas dentadas, engrenagens. O europeu aprendeu a multiplicar ou reduzir a força e a velocidade. O poder hidráulico, canalizado, movia figuras decorativas nos jardins dos palácios. Gutemberg revolucionou a leitura e surgiram livros copiados e reproduzidos por máquinas em maior quantidade, em menos tempo e mais baratos. A descoberta do papel de trapo e depois de celulose colaborou com essa transformação. O relógio de pêndulo marcava a hora independente do ser humano e da posição dos astros. O cidadão da Europa não seria mais escravo das condições meteorológicas para medir seu tempo. A navegação, embora à vela, começou a usar conhecimentos de física para melhor aproveitar o vento – surgiu a caravela. Os conhecimentos de matemática, física e química ajudavam a compreender melhor os fenômenos naturais, a prevê-los e, em alguns casos, a controlá-los. Isso induziu os pensadores europeus a afastarem a idéia de que eles fossem regidos por Deus e a sua mercê estivessem!

Essas descobertas e invenções contribuíram para formar o pensamento mecanicista, iniciando com o racionalismo de Descartes na virada dos Séculos XVI e XVII. A seguir o mecanicismo prosseguiu com o empirismo dos ingleses e o sensualismo dos franceses. Estava concebida a GRANDE MÁQUINA que era o Universo. A sua perfeição, que até então, era atribuída a Deus, passou a ser considerada obra do acaso e conseqüência de forças errantes que se encontravam ao léu. A humanidade tornou-se capaz de tentar prever e controlar cientificamente os fenômenos da natureza. Fórmulas matemáticas e físicas eram aplicadas em tudo. O Universo era passível de observação, medição, experimentação e reprodução em laboratório. Da física e da química, o pensamento europeu passou para as ciências biológicas. Esse modo de ver as coisas foi exportado para outros continentes com as navegações, colonização e imprensa.

Até o século XVIII, tudo já estava explicado por uma teoria mecanicista, com exceção dos fenômenos sociais, dos mentais e da origem do homem. Os sociais foram explicados mecanicamente com o positivismo de Auguste Comte, a evolução humana pela teoria evolucionista de Charles Darwin, os mentais, por Freud.

Verificamos que nesses cinco séculos de evolução, a humanidade foi gradualmente deixando as idéias vitalistas e teístas  para adotar o mecanismo. Agora estava tudo explicado como uma máquina. O ser humano tem agora máquinas a seu dispor: a social de Comte, a mental de Freud e assim por diante. A aceitação universal da teoria psicanalítica não comprova sua veracidade, como ingenuamente muitos pensam. Comprova apenas que ela satisfaz ao Zeitgeist do momento, que é predominantemente mecanicista. Deus deixou de ser o centro do universo, que passou ser o homem [antropocentrismo] e finalmente a máquina [tecnocentrismo]. O homem e, depois, a máquina, tornaram-se a medida de todas as coisas. O teismo é substituído pelo “deísmo” do humanismo antropocêntrico pelo “ateísmo” do tecnocentrismo.

Newton postulava que o movimento não era comunicado por contato físico, mas sim por atração e repulsão. Freud em sua mecânica do inconsciente, coloca forças produzindo fenômenos mentais.

Ao final do Século XIX, com o fim da era vitoriana, formou-se o novo Zeitgeist. Dessa vez não ficou limitado à Europa. Com meios modernos de transporte e de comunicação, atingiu o mundo todo.

 

4.      Formação do Zeitgeist moderno:

As descobertas e invenções relatadas no item anterior galvanizaram-se para modificar os hábitos, costumes e, mesmo escalas de valores. Os meios de transporte e de comunicações tornaram o mundo menor. Culturas foram colocadas em contato com outras e, necessariamente, surgiram fusões, absorções, assimilações. O ser humano surpreendeu-se ao verificar que aquilo que era condenado em sua cultura não o era em outra, sendo até mesmo, cultivado. As convicções e as certezas começaram a ser abaladas. Ele passou a duvidar e por em exame velhas concepções. Esse fato de duvidar do que era até então considerado, certo ou errado não era prova de que estava errado ou certo. É necessário que isso seja enfatizado, pois hodiernamente há quem considere erradas antigas crenças só pelo simples motivo de elas serem objetos de especulação.

O cenário político mundial modificava-se aos poucos. As Américas que começaram no início Século XIX como continentes de colônias européias, terminaram com  berço de nações independentes. Em outras partes, onde ainda havia colonização por países da Europa, apareceram os movimentos de emancipação. Em várias partes do mundo, onde havia várias etnias em um só bloco político, manifestaram-se as lutas separatistas.

A Primeira Guerra Mundial abalou a estrutura européia com o desmoronamento de três monarquias: a austríaca, a alemã e a russa. O Império Austro-Húngaro esfacelou-se e vários países apareceram. Com o comunismo soviético, a ordem político-sócio-econômica do mundo teve uma grande mudança estrutural.

Minorias radicais, religiosas, políticas, sociais, iniciam a luta por seus direitos, para conseguir igualdade aos das dominantes. Na França, as “suffragettes” deflagraram o feminismo. Em outras partes, proletários criam o trabalhismo, deixando a condição semi-servil para, paulatinamente, tornaram-se associados das empresas. Uma consciência individual brota em todos os setores de sociedade.

Essas transformações foram no começo nimiamente salutares para a humanidade. Mas com o tempo, como toda mudança soe produzir, essas conquistas desaguaram num mar de desatinos, tendo o seu ápice na década de sessenta do século XX com o movimento “hippie”.  É o que chamamos em ética de “laxismo” [pronuncia-se “ks”]: liberdade sem responsabilidade, direitos sem deveres, igualdade sem respeito à hierarquia e à tradição, levando a uma iconoclastia mórbida, fraternidade sem ordem e trabalho.

A Segunda Guerra Mundial contribuiu para nova mudança da ordem mundial. A carta da Europa foi modificada mais uma vez. O pavor infligido pelo nazismo uniu correntes políticas antagônicas, como a liderada por Churchill com a de Moscou. As metrópoles colonizadoras prometeram às colônias autonomia em troca de “bucha para canhão”. Os antagonistas do nazismo, numa histeria de propaganda adversa, pregavam ideais de liberdade que eles mesmos não praticavam. A hipocrisia passou a ter seu lugar ao sol. Findo o grande conflito, a humanidade deparou-se com um mundo onde a liberdade era usada como bandeira para todos os excessos e abusos; todas as pessoas passaram a se considerar com direitos, porém se esquecendo dos deveres e de que ambos variam numa proporção direta. A apologia da igualdade minou o respeito à autoridade e à hierarquia.

Nesse caldeirão confuso, formou-se o Zeitgeist presente, cujas características veremos no item a seguir.

 

5.      Características:

O “Zeitgeist” desenvolvido no Século XX, firmando-se a partir do final da Segunda Guerra Mundial e tendo seu apogeu nos famigerados movimentos de protesto da década de sessenta do Século XX, é caracterizado pelos itens abaixo:

 

5.1     Contestação. “Questionamentos”,  protestos. Tudo o que até então estava estabelecido passa a ser alvo de dúvida, de especulação fútil, de sarcasmo, de considerações subjetivas. Os “carneiros de panurgo” contestam levianamente qualquer valor, sem fundamentação, simplesmente pela futilidade de se  apresentarem como “modernos’, “atualizados”, “progressistas”. Há exaltação do subjetivismo, todas as verdades até então existentes são consideradas como relativas, sem valor como parâmetro para o bom comportamento. Eles questionam os valores morais. Os vultos históricos são considerados embustes fabricados para enganar o povo, os heróis transformados em vilões e os criminosos, que se tornaram célebres por suas torpezas, como o caso de Lampião, são considerados vítimas da difamação organizada pelo poder. Um simples erro de tipografia torna-se pomo de controvérsias e polêmicas pueris e estéreis. Correntes de pensamento, até então postas de lado, são esposadas levianamente como formas larvadas de protesto e não por idealismo responsável. As mentes ocas abraçam formas alternativas de medicina, religiões esdrúxulas e exóticas Opiniões bizarras são consideradas produtos da mais lúcida reflexão. O mau gosto é usado como protesto nas artes – um borrão de tinta casual torna-se obra prima. Movimentos, como a antipsiquiatria, que nega a realidade objetiva da doença mental, encontram um ótimo caldo de cultura para medrar e poluem a mente humana. Marchas histéricas, com o objetivo oculto de perturbar a ordem ou entravar o progresso, desfraldam a inocente bandeira da ecologia. Essa contestação não fundamentada, leviana, irresponsável também é conhecida por “iconoclastia” [ver item 5.11].

5.2     Extravagância. O bizarro, o esquisito, o esdrúxulo, o estapafúrdio, o escandaloso, o excêntrico, o mau gosto, o diferente, o que contraria, o que choca, o que causa espécie, serve como padrão de comportamento. O comedido, o parcimonioso, o discreto, o tranqüilo, o suave, o conservador, o formal, torna-se motivo de desdém, mofa, desprezo, insulto, reprovação. A extravagante, o exibicionismo, o escandaloso, são considerados manifestações naturais.x

5.3     Subjetivismo. Chega ao extremo de negar a realidade objetiva. Predominam o solipsismo e o niilismo. Tudo é relativo, transitório. Nada serve como parâmetro. Nada está certo ou errado. Tudo é discutível, depende da maneira de ver. Há exaltação  do subjetivismo, considerando-se todas as verdades, até então existentes como relativas, sem valor como parâmetro de bom comportamento. A verdade só existe dentro de nós e o mundo externo é negado – é o completo solipsismo esquizofrênico. Surgem frases párvulas como: “o azul que eu vejo não é o azul que você vê”, “o seu bem não é o meu bem”, “o que está em cima pode estar em baixo”, “a sua verdade não é a minha”, “o meu mundo não é o seu”. Tais pensamentos preparam um bom campo para desenvolverem-se teorias pervertoras, como as que fazem apologia da naturalidade e universalidade do incesto, da homossexualidade e da devassidão que soem hodiernamente. Na arte moderna, mormente na pintura e na escultura, predomina o subjetivismo: o artista não se preocupa em retratar a realidade objetiva, mas sim seu mundo subjetivo. Isso encontra apoio nos postulados freudianos de inconsciente. Essas obras são aceitas incontestemente, sequer sejam boas ou não, só por satisfazerem o Zeitgeist do momento. Isto foi concretizado no “Manifeste du Surrealisme” feito por André Breton em 1924.

5.4     Populismo demagógico. É o nivelamento por baixo. O que presta, o que tem valor, o que vale, é  o que vem das mais baixas camadas sociais, culturais, religiosas, éticas, estéticas. É a política demagógica do “povão”. São os movimentos  que procuram levar a cultura ao poviléu ignaro e não esse àquele. Surgem aberrações tais como: querer substituir o poema do Hino Nacional por versões de pé quebrado e em linguagem chã e, provavelmente, cantada em ritmo de rock ou pagode; a sagrada Missa é cantada em ritmos profanos à guisa de atrair os jovens para a Igreja, mas, na realidade, estão conspurcando a Igreja com antros sociais. Algumas igrejas, que se dizem evangélicas, realizam o culto a Deus substituindo os hinos por rock! E isso é aprovado pelos “esclarecidos” que julgam que se está prestando um grande serviço à causa do Senhor. Contudo, os jovens, que ocorrem a esses templos “modernizados”, o fazem não com espírito de constrição, mas com interesse em ter mais um local de divertimento e exibicionismo.

5.5     Liberalismo irresponsável. É a apologia insana da liberdade sem obediência responsabilidade, todos querem ter os mesmos direitos dos “privilegiados”, porém sem seus respectivos deveres! É o jovem que quer um carro, mas acha “antiquado”, “improfícuo” estudar ou trabalhar para consegui-lo. É o “coitadinho” que quer chegar de madrugada em casa, gastar dinheiro com sua vida de lucífugo, mas detesta compromissos com os meios de produção. É a adolescente que quer ter uma vida sexual livre e inconseqüente, seguida por uma maternidade irresponsável. Suas manifestações são: direitos sem deveres; liberdade sem obediência e responsabilidade por atos ou omissões [quem não aprendeu a obedecer e não responde por seus atos ou omissões não pode ser livre, tem que ser tutelado]; igualdade sem respeito à hierarquia e à tradição [as pessoas confundem “igualdade de oportunidades” com “igualitarismo demagógico”]; fraternidade sem ordem e trabalho [onde o ócio e a anarquia predominam, não pode haver fraternidade]; é proibido “proibir” [foi o lema das badernas nas ruas de Paris, em maio de 1968]. A palavra “liberalismo” ficou vinculada a doutrina econômica que defende o “laissez-faire” e “laissez-passer” econômicos, isto é, a desregulamentação da atividade econômica, a fim de facilitar a concentração de renda nas mãos de poucos. Por isso, a esquerda anarquista chama essa ideologia de liberdade sem obediência e responsabilidade de “libertarismo”. Na área da ética, a desregulamentação da atividade ética, isto é, a transposição do “laissez-faire” e “laissez-passer” econômicos para ela, é chamada de “laxismo” [pronunciamos “ks”].

5.6     Hedonismo. O prazer, o gozo, a satisfação, a recreação, estão acima dos deveres, das obrigações, dos compromissos. O ser humano procura desfrutar inconseqüentemente de todos os prazeres da vida – as conseqüências não importam. É o culto ao prazer desenfreado. Encontram-se disparates como os proferidos por alguns “sexólogos” (Hite, Shere) que acham que a finalidade precípua do sexo é o prazer e não a procriação.

5.7     Imediatismo. Viver intensamente o momento presente. As lições ensinadas pelo passado e o planejamento do futuro tornam-se ninharias desprezíveis. É a compulsão mórbida a aproveitar o tão propalado “aqui e agora” do Existencialismo, como se não houvesse uma vida além desse mesquinho presente e um Deus a quem prestar conta.

5.8     Permissividade. É uma conseqüência do liberalismo irresponsável. Comportamentos francamente antinaturais, por contrariarem frontalmente as Leis da Natureza, como o homossexualismo, a bestialidade, as toxicomanias, são tolerados e até estimulados, chegando, em alguns grupos sociais compostos por desajustados a serem considerados como padrão de conduta desejável.

5.9     Individualismo. É uma conseqüência do subjetivismo. Essa característica permite o aparecimento de doutrinas subversivas que pregam que “não precisamos precisa obedecer às leis, pois temos um “Deus interno” que nos fornece a “sabedoria” necessária. Sacrifica-se o interesse comum pelo egoísmo individual ou de minorias não representativas. Relacionado com o solipsismo.

5.10 Holismo. O pensamento holístico floresceu no início do século XX. Na psicologia tomou o nome de gestaltismo e na lingüística, o de estruturalismo (em psicologia estruturalismo é o oposto – é uma doutrina atomista). Esse princípio foi corporificado em forma de doutrina por Jan Smuts. A posição do Zeitgeist moderno é usada para contestar o que foi estabelecido pelo pensamento elementarista anterior. As clássicas divisões, subdivisões são postas em dúvida ou negadas. Desse modo duvida-se que haja uma arte popular e uma erudita – “tudo é a mesma coisa”. Nega-se a existência das elites e da plebe. Novamente caímos no subjetivismo, pois negamos a realidade objetiva – a da existência real de diferenças sócio-culturais. Não se consegue enxergar as diferenças. Confundem-se as partes por não se saber distinguir os limites. É certo que no Universo nada é estanque; a Divina Harmonia faz com que todas as coisas existam com interdependência, contudo, isso não anula a existência das partes. Embora existam as zonas de transição, que o todo seja mais que a simples soma das partes, não é possível que se negue a existência das partes e que elas tenham uma unidade definida. O holismo tem uma relação estreita com a contestação e o subjetivismo. Aparentemente, o holismo seria incompatível com o individualismo, mas na realidade ele favorece. Na medida em que ele anula antiga estrutura de costumes, hábitos, põe em dúvida tudo que até então servia como padrão de comportamento e controle, ele desorganiza a sociedade e afrouxa os laços interpessoais. Assim, as pessoas, então dissociadas, agem por si, sem se importarem com o próximo. Uma manifestação desse holismo desenfreado é a aversão mórbida apresentada contra qualquer sistema classificatório. Essas mentes vazias acham que as denominações e classificações não passam de meros rótulos, da mesma forma como eles são apostos em embalagens. Elas esquecem que há critérios seguidos para criar uma classificação. Embora, uma definição não englobe todos os  empregos de um termo, objeto ou fato, não significa que ela não traga utilidade para a comunicação interpessoal. Esses portadores de vacuidade mental desconhecem rudimentos mínimos de lógica formal. Se a sociedade não contasse com classificações, definições, mesmo um pouco artificiosas, viveríamos no caos e parece que é isso que esse holismo inconseqüente nos está levando.

5.11 Anticonservadorismo. Tudo tem que mudar, mesmo o que está dando certo. Nada pode permanecer constante. Esse modo de julgar concorre para a proliferação de permissividade. Antigos conceitos de moral, de bem proceder, são postos em dúvidas ou simplesmente abandonados, sem um exame mais profundo. É censurável fazer-se as mesmas coisas que os pais e avós faziam, mesmo que estejam produzindo bons frutos. Isso cria uma instabilidade moral na sociedade e o ser humano perde a noção do bem. Passa-se a tolerar, até mesmo fazer-se apologia, de comportamentos antes condenáveis como é o caso do homossexualismo. O movimento “gay” é admitido e não se toma nenhuma providência para coibi-lo, pois as pessoas “boas” têm vergonha de serem consideradas “conservadoras”, “retrógradas”. A tradição é ridicularizada. É uma forma de iconoclastia [ver item 5.1]

5.12 Psicologismo. O aparecimento da psicologia como ciência independente da Filosofia e da Medicina experimental no final do século XIX, deveu-se ao pensamento mecanicista. Foi uma tentativa de se explicar os fenômenos mentais como máquina e semelhantes aos físicos e químicos. Como tais, deveriam ser previsíveis e controlados. A partir de então, tentamos experimenta-los e reproduzi-los em laboratório, visando à descobrirmos suas leis, de modo semelhante ao que é feito pelas Ciências Naturais. Todas as correntes do pensamento psicológico, que surgem a seguir, são mecanicistas: estruturalismo, funcionalismo, psicanálise, gestaltismo, behaviorismo, etc. Dessas, a que melhor explica mecanicamente os fenômenos mentais é a teoria freudiana. O behaviorismo e a reflexologia não satisfizeram tão bem a esse desiderato, pois ao eliminarem a noção de mente e reduzir tudo e reações neurofisiológicas, criaram um vazio. A psicanálise, preservando a noção de mente, mas a igualando a uma máquina, preencheu melhor a lacuna existente. Os testes psicológicos, que tentam medir a mente ou prever o comportamento, estão profundamente ligados ao Mecanicismo. Pela teoria vitalista, a mente não poderia ser controlada dessa forma. As técnicas psicoterápicas também se prendem a esse princípio. De acordo com o vitalismo, a melhora de uma pessoa depende unicamente de sua reforma interna, de um esforço pessoal (livre arbítrio) em vencer os sentimentos e pensamentos inferiores, como ódio, invejam, ciúme, rancor, vingança, vaidade, orgulho, maledicência, indolência, etc. Certas teorias, como a Gestalt que lutou contra o estruturalismo, são um esforço para dar o primeiro passo contra o mecanicismo, mas assim mesmo, permanecem mecanicistas. O humanismo de Carl Roger é também um tentame infrutífero, pois ainda permaneceu preso a esse princípio. Notamos que já aparecem na Psicologia os primeiros ensaios de mudanças, mas ainda sem grande repercussão no pensamento global. O psicologismo procura ver tudo como produto de mecanismos psicológicos e de matiz inconsciente. Seria melhor chamá-lo de “inconscientismo”.

5.13 Monismo. Quando em Ciência e em Filosofia ainda aceitávamos a existência do espírito, dominavam as teorias dualistas. Até os séculos XV e XVI, havia o dualismo paralelista ou paralelismo psico-físico. Com Descartes, surgiu a noção de dualismo interacionsita. À medida que o materialismo ganhava terreno na ciência e filosofia, o teísmo foi sendo afastado e as manifestações da mente, que antes eram consideradas como da alma ou do espírito, passaram ser considerados como expressão do corpo físico. Mente e corpo, se tornaram a mesma coisa. Todas as escolas psicológicas, antropológicas, sociais, fisiológicas, consideram o ser humano como uno. Isso não deixa de ser, em última análise, uma particularidade do pensamento holista. Nobre de Melo (1979) afirma que Freud apesar de ter construído um sistema mental baseado no monismo, acabou sendo dualista e, quando notou isso, tentou retificar, com insistência no curso dos anos. Fê-lo, porém, como era de prever, pela hipertrofia do inconsciente dinâmico, situando-o para além do esquema cartesiano, e a ele tentando vincular, artificial e arbritariamente, o todo unitário, indissolúvel, pessoa humana. Com essa citação extraímos dois exemplos: o primeiro é que Freud não conseguiu sustentar o monismo, pois a existência, a preexistência e a sobrevivência do espírito ao corpo físico, são uma realidade e tudo que dela se afastar tende a falir. Nobre de Melo afirma veementemente “o todo unitário” do ser, demonstrando essa característica do Zeitgeist hodierno e mostra ainda sua força, levando Freud a uma ginástica hercúlea para dele não fugir.

5.14 Empiricismo. É a aprendizagem através da experiência sensível. “Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu”. O pressuposto teórico da terapia psicanalítica de que o paciente tem que vivenciar no “setting” a situação conflitiva, prende-se a esse princípio. A terapia ocupacional baseia-se nele. A posição que os lingüístas modernos têm de duvidar da eficiência do policiamento de uma língua, está alicerçado nele também. O sistema numeral artificial da língua Guarani, o Esperanto, o Hebraico atualmente falado em Israel, a reabilitação de certos dialetos celtas, provam que tal princípio não é absoluto.

5.15 Humanismo. Com a expulsão da idéia de Deus, o ser humano tornou-se o centro do universo. Os humanistas argumentam que no período do teísmo a criatura humana ficava relegada a plano secundário e, por isso, o humanismo é   mais real. Eles alegavam que, se o Ser humano é uma criação divina, será beneficiado no momento em que adoramos a Deus. Eles examinaram certas distorções do teísmo e o julgam por ela. O certo é avaliarmos p teísmo pelo que ele é e não por suas distorções. Algumas teorias não satisfeitas com o mecanicismo freudiano, se auto denominaram de humanistas (Roger, Maslow, Pearls). Como Freud não foi teísta, foi humanista. O que acontece é que essas teorias divergentes sentem a falibilidade da máquina freudiana, mas em vez de combater o mecanicismo mental, permanecem nele e  chamam essa insatisfação de “humanismo”.

5.16 Mecanicismo. È uma característica importante do Zeitgeist do momento - o mecanicismo físico, social, evolucionista, mental, etc. Deus foi afastado e uma grande máquina foi colocada controlando o universo. Não se considera mais que certos acontecimentos sociais, sismológicos, meteorológicos sejam resultado de um plano de Deus [de uma providência divina, de um determinismo finalista]. Com isso, a humanidade deixa de refletir e tomar como lição as catástrofes. Fervor é palavra riscada do vocabulário. Prece para agradecer uma boa colheita ou implorar misericórdia por cataclismo não tem mais lugar. O ser humano julga que não precisa mais de Deus e pode resolver tudo por si. É o início do fim!

5.17 Anarquismo. É uma expressão política do mecanicismo. As sociedades, ao longo dos tempos, vêm sendo regidas por uma pessoa ou por elites, semelhante à concepção que temos de que o universo é regido por Deus. Uma vez que o homem retirou Deus de seu Universo com a adoção do pensamento mecanicista, e o substitui por uma máquina, na política foi necessário que o homem retirasse os governos das sociedades e os substituíssem também por uma máquina. No anarquismo, as pessoas viveriam relacionando-se social e politicamente como se fossem peças de uma grande máquina. Sentimos logo a falência desse modo de pensar, pois as máquinas não se movem por um moto contínuo. É preciso que um ser animado a ponha em movimento e a alimenta com combustível, a controle, vele por ela. Se não houver alguém que tome conta dela, ela fatalmente irá parar por falta de manutenção e de combustível. De acordo com os postulados mecanicistas, se o Universo não precisa de um Regente, a sociedade também não precisara.

5.18 Tecnocracia. É uma conseqüência do mecanicismo.  Desde o Paleolítico, passando pelo Neolítico, pela Antigüidade e até a Idade Média a Humanidade era dirigida pro regimes teocráticos. A partir do Renascimento, com seu humanismo, a teocracia foi substituída pelo antropocentrismo, por uma “antropocracia”. Com o desenvolvimento da máquina na passagem do Século XVIII para o XIX, essa “antropocracia” foi paulatinamente substituída por uma tecnocracia. O resultado catastrófico foi a perda da sacralidade, a profanização de certas profissões que ainda mantinham uma relação mística com o povo: o Magistério , a Enfermagem, a Medicina, a Atividade Castrense. Hoje, o resultado dado por uma máquina computadorizada vale mais do que a aula do professor, a vigilância da enfermeira, a palavra do médico ou os planos e decisões tomados por um Estado-Maior ou Alto Comando.