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"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito Lucas 16:.10

 

  1. Há um erro lógico.
  2. O que há de comum, de genérico, de nomotético, de certo, é a fidelidade ou a desonestidade, conforme o caso.
  3. A diferença está no específico, no idiográfico. Ela está na intensidade – a quantidade.
  4. Essa frase encerra um sofisma por tomar por quantidade aquilo que só é qualidade. Especificamente, para ser fiel no pouco há menos tentação, cobiça, assim como desonesto no pouco há menos exigência de agressividade, de determinação, de inescrupulosidade, de dolo. Evidentemente, que a fidelidade no pouco é menor do que a exigida no muito. Da mesma forma periculosidade do desonesto no muito é maior que a daquele que só o é no pouco.
  5. Quando tratamos igualmente pessoas diferentes, inevitavelmente estamos sendo injusto com alguém. Tratar da mesma forma pessoas que, embora sejam iguais qualitativamente, mas diferem quantitativamente, estaremos cometendo injustiça com quem que é menos perigoso.
  6. A fidelidade no pouco exige menos capacidade de suportar as frustrações do que para ser fiel no muito. Embora, qualitativamente os dois estejam certos, o fiel no muito precisa ter mais cabedal moral que o outro.
  7. O enfrentamento da “idéia de ilicitude” “no pouco” ou “no muitodependerá da maior ou menor periculosidade do agente. Embora qualitativamente os dois estejam errados, a intensidade (quantidade) do dolo despertará menos ou mais sentimento de culpa, de remorso e de arrependimento.
  8. O fiel no muito, que enfrenta maior tentação, necessariamente deverá ter mais capacidade de resisti-la. O delinqüente menor não será necessariamente capaz de cometer ato ilícito de dolo mais intenso.
  9. O ditado que diz: “Quando a fome entra pela porta, a honra sai pela janela”, é interpretado como a honra só existesse nos momentos fáceis. Há pessoas que combatem essa interpretação e afirmam que a pessoa verdadeiramente honrada, o é nas situações amenas e na adversidade. Em nossa opinião, isso mostra também uma confusão entre qualidade e quantidade. “Ser honrado” é uma qualidade, mas não expressa a intensidade dessa honra. Ela pode ser insuficiente para enfrentar grandes adversidades. Podemos considerar que há o “pouco” e o “muito” honrado. Algumas pessoas rebatem essa afirmação com uma posição radical: “ou somos honrados em qualquer situação, ou não o somos”. O conhecimento humano é possível, mas é gradativo e acumulativo. Assim, os valores éticos são assimilados quantativamente de maneiras diferentes pelas pessoas, sempre dependendo de seu grau de evolução espiritual. Então podemos afirmar que algumas pessoas os assimilam mais e outras menos. O mesmo ocorre com a fé. Há pessoas que afirma: “E tenho sofrido tanto ultimamente, que já perdi minha fé”. Citam como exemplo a demonstração de fé feita por Job, que a manteve quando tudo em sua volta tinha se esboroado. Os teólogos rebatem essa afirmação, asseverando “ou temos fé em qualquer circunstância ou não a temos”. Nosso ponto de vista é o mesmo: falta de distinção entre quantidade e qualidade. Ter fé é qualidade do religioso, mas sua quantidade, sua intensidade, dependerá de sua elevação espiritual.
  10. Essas considerações são fundamentais na avaliação da periculosidade de criminosos.

CONCLUSÃO: CONSIDERAMOS QUE ESSE APOTEGMA APRESENTA UM SOFISMA POR CONFUNDIR QUALIDADE COM QUANTIDADE.

 

 

 

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