"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é
desonesto no pouco, também é desonesto no muito” Lucas 16:.10
-
Há um erro lógico.
-
O que há de comum, de genérico, de nomotético, de certo, é a fidelidade ou a
desonestidade, conforme o caso.
-
A diferença está no específico, no idiográfico. Ela está na intensidade – a
quantidade.
-
Essa frase encerra um sofisma por tomar por quantidade aquilo que só é
qualidade. Especificamente, para ser fiel no
pouco há menos tentação, cobiça,
assim como desonesto no pouco há menos
exigência de agressividade, de determinação, de inescrupulosidade, de dolo.
Evidentemente, que a fidelidade no pouco
é menor do que a exigida no muito. Da mesma forma
periculosidade do desonesto no muito é
maior que a daquele que só o é no pouco.
-
Quando tratamos igualmente pessoas diferentes, inevitavelmente estamos
sendo injusto com alguém. Tratar da mesma forma pessoas que, embora
sejam iguais qualitativamente, mas
diferem quantitativamente,
estaremos cometendo injustiça com quem que é menos perigoso.
-
A fidelidade no pouco exige menos capacidade de suportar as frustrações
do que para ser fiel no muito. Embora, qualitativamente os dois estejam
certos, o fiel no muito precisa ter mais cabedal moral que o outro.
-
O enfrentamento da “idéia de ilicitude” “no pouco” ou “no muito”
dependerá da maior ou menor periculosidade do agente. Embora
qualitativamente os dois estejam errados, a intensidade (quantidade)
do dolo despertará menos ou mais sentimento de culpa, de remorso e de
arrependimento.
-
O fiel no muito, que enfrenta maior tentação, necessariamente deverá ter mais
capacidade de resisti-la. O delinqüente menor não será necessariamente
capaz de cometer ato ilícito de dolo mais intenso.
-
O ditado que diz: “Quando a fome entra pela porta, a honra sai pela janela”,
é interpretado como a honra só existesse nos momentos fáceis. Há pessoas que
combatem essa interpretação e afirmam que a pessoa verdadeiramente honrada, o
é nas situações amenas e na adversidade. Em nossa opinião, isso mostra também
uma confusão entre qualidade e quantidade. “Ser honrado” é uma qualidade, mas
não expressa a intensidade dessa honra. Ela pode ser insuficiente para
enfrentar grandes adversidades. Podemos considerar que há o “pouco” e o
“muito” honrado. Algumas pessoas rebatem essa afirmação com uma posição
radical: “ou somos honrados em qualquer situação, ou não o somos”. O
conhecimento humano é possível, mas é gradativo e acumulativo. Assim, os
valores éticos são assimilados quantativamente de maneiras diferentes pelas
pessoas, sempre dependendo de seu grau de evolução espiritual. Então podemos
afirmar que algumas pessoas os assimilam mais e outras menos. O mesmo ocorre
com a fé. Há pessoas que afirma: “E tenho sofrido tanto ultimamente,
que já perdi minha fé”. Citam como exemplo a demonstração de fé feita por
Job, que a manteve quando tudo em sua volta tinha se esboroado. Os teólogos
rebatem essa afirmação, asseverando “ou temos fé em qualquer circunstância
ou não a temos”. Nosso ponto de vista é o mesmo: falta de distinção entre
quantidade e qualidade. Ter fé é qualidade do religioso, mas sua quantidade,
sua intensidade, dependerá de sua elevação espiritual.
-
Essas considerações são fundamentais na avaliação da periculosidade de
criminosos.
CONCLUSÃO: CONSIDERAMOS QUE ESSE APOTEGMA APRESENTA UM SOFISMA POR
CONFUNDIR QUALIDADE COM QUANTIDADE.