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FISIOLOGIA DA PERCEPÇÃO

1.        Definição. É interpretação subjetiva dos dados internos ou externos captados pela sensação.

2.       Sensação. Resultado de estímulo interno ou externo ao córtex cerebral, dando ao indivíduo notícia de sua existência.

3.       Considerações sobre sensação. Embora pela definição acima pareça clara a idéia de sensação, ela é complexa. Sua simplicidade aparente reside na simples consciência que o estímulo sensorial provoca. Torna-se complexa porque o indivíduo ao se conscientizar de uma sensação, o fará de acordo com seus patrimônios cognitivo, volitivo, afetivo e instintivo. Como esse patrimônio é individual, não é possível duas pessoas, mesmo gêmeos univitelinos criados juntos, interpretarem o mesmo símbolo igualmente. Portanto, podemos asseverar que a sensação absoluta é impossível, o que ocorre na realidade é que a conscientização da sensação ocorre conforme esse patrimônio. Isso é o que consiste a PERCEPÇÃO DA SENSAÇÃO. Na realidade, o indivíduo, só conscientiza a percepção. Isso cria um idiografismo. A visão de mundo é individual, nimiamente subjetiva.

4.       O valor de da perfeita compreensão dos mecanismos da percepção auxiliará na avaliação da validade dos testemunhos e em técnicas psicoterápicas que pretendam melhorar qualquer inter-relação humana.

5.       O testemunho de um fato variará de pessoa para pessoa. Embora o fato seja o mesmo, mas cada testemunha o interpreta de acordo com seu patrimônio constituído por seus  valores cognitivos, volitivos, afetivos e instintivos. A “prova testemunhal”, tem um valor relativo, valendo mais como um dado indiciário. Levando-se em conta que nossa personalidade está sempre em mudança, interpretaremos um fato ocorrido no passado de modo diferente conforme o tempo for transcorrendo. Por isso, o testemunho individual pode alterar-se com o tempo.

6.       As relações inter-humanas são muito prejudicadas pela subjetividade de como pessoas que convivem mutuamente percebem o mesmo mundo externo. Cabe ao psicoterapeuta despertar os conflitantes para entenderem essa subjetividade da percepção e aprenderem a conviver com ela.

7.       A subjetividade da percepção sempre atraiu a atenção dos estudiosos. Foram criados dois exemplos para exemplificar isso: “A Figura Ambígua de Laevitt” e “Vaso de Rubim”. Já o lema “Carpe Diem” é um bom exemplo da atualidade.

Figura ambígua de Laevitt (fig. tirada da Internet): a) Vemos a figura de uma geronte com tórax em ¾, o rosto de perfil; uma franja de cabelo escuro e um pano branco cobrindo a cabeça. b) Vemos o perfil de uma jovem, nós a olhando de trás para frente; vemos seu lado esquerdo; seu cabelo é preto; vemos parte se seu pescoço; o nariz da geronte é a mandíbula da jovem; o olho esquerdo da idosa, a orelha esquerda da moça; a boca da idosa é o pescoço da moça; a sua abertura,um enfeite no pescoço da jovem.

Vaso de Rubin (fig. tirada da Internet). A parte central branca lembra um vaso. As laterais, em cor preta, lembram uma imagem especular de perfil humano. Algumas pessoas percebem de imediato o vaso branco. Outras, a imagem especular. É um exemplo da distinção que a Gestaltpsychologie faz entre figura e fundo. Para alguns a figura é o vaso e as margens pretas, o fundo. Para outras é o inverso. Isso já prova a subjetividade do testemunho: que uma testemunha percebeu como figura, outra pode ter percebido como fundo. Também mostra que em relações inter-humanas o desentendimento pode ter sua raiz no que uma percebe como figura, a outra percebe como fundo.

Carpe Diem (“Colha o dia”, “aproveite [hedonísticamente] o dia de hoje”). Os adeptos da Contra-cultura da Nova Era tomaram esse trecho fora do contexto do poema "Odes" (I,, 11.8) do poeta romano Horácio (65 - 8 AC) como um lema hedonístico. Interpretaram-no conforme os valores decadentes do “espírito da época (Zeitgeist)”. Se examinarmos o contexto, ele é um lema com significado justamente oposto, exorta ao estoicismo. O poeta afirma que, se não sabemos o que nos está reservado para o futuro, devemos “aproveitar o dia de hoje” para que não tenhamos conseqüências funestas no futuro. A película de contestação, A Sociedade do Poetas Mortos (“Dead Poets Society” – EUA 1989 - drama que se desenrola
em meados de 1959, no internato masculino chamado Academia Welton) acentuou essa deturpação hedonística. A interpretação desse lema variou do estoicismo original para o hedonismo. Isso ocorreu porque sua interpretação moderna foi influenciada pela subjetividade dos valores citados acima, com o agravamento de retirá-lo do contexto original para melhor ser usado com propósitos diferentes do original.

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi

finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios

temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.

seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,

quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare

Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi

spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida

aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

 

Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti

os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses

não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será,

sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu,

ou seja o último este, que contra a rocha extenua

o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,

pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido

ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Carpe_diem

 

8.       O médico suíço, Hermann Rorschach (1884 – 1922), percebeu que seus pacientes interpretavam diferentemente uma mancha de tinta em sua escrivaninha. Influenciado pela concepção freudiana de inconsciente dinâmico, julgou que motivações inconscientes de seus pacientes provocavam essas alterações subjetivas da percepção da mancha de tinta. Baseado nisso, produziu aleatoriamente várias manchas de tinta em papel e, pela interpretação que lhes eram dadas, construiu um meio de avaliação de caracteres de personalidade.

Uma prancha colorida do Teste de Rorschach (fig. tirada da Internet)

 

9.       Aqui no Brasil, circula pela internet um chiste com o título “Porque a galinha atravessou a rua”. Quem o fez, apresentou várias versões, fazendo chistes com políticos, artistas e outras figuras públicas. Mostra que um mesmo fato pode ser interpretado de diferentes modos conforme o patrimônio individual. O mesmo ocorre com a música infantil “Porque o Sapo Não Lava o Pé”. O autor anônimo fornece várias versões, cada uma de acordo com a visão de mundo das pessoas satirizadas: políticos, artistas, personalidades públicas.

10.   Percepção gradativa. A percepção depende de como a sensação nos é apresentada. Uma vez que nós a interpretaremos de acordo com nosso patrimônio de sinapses córtico-frontais, podemos rejeitar uma sensação que colida com os valores desse patrimônio. Por isso, nas atividades de educação, as idéias novas devem ser apresentadas gradativamente, para poderem ser assimiladas pelo indivíduo. Essa gradação também pode ser usada para o mal, como nas “lavagens cerebrais”. É a solércia muito bem representada pelo ditado popular “mingau quente, come-se pelas beiradas” (esse ditado também pode ser interpretado como “cautela”). Pela Internet, circulam dois exemplos. a) Um tem o título: “Como capturar porcos selvagens”; orienta-nos a todo dia colocar numa clareira da floresta milho para os porcos comerem; após algum tempo, constrói-se somente uma parede de cerca; continuamos a habituar os porcos a essa nova situação e eles acabam por não percebê-la; depois se constroem duas paredes laterais; segue-se a mesma orientação; depois se constrói a última parede, deixando-se apenas uma fenda para entrada e saída dos porcos; por fim, estando os porcos dentro do cercado comendo, fecha-se a fenda; os porcos, quando percebem que estão presos, não podem fugir mais, só lhe restando submeterem-se a domesticação. b) O outro exemplo é o da rã. Se quisermos cozinhar uma rã e a jogarmos viva em uma panela com água fervente, ela tentará escapar; ao contrário, se a colocarmos dentro de uma panela com água na temperatura ambiental, ela nada estranhará; depois colocamos a panela no fogo e a água passa a aquecer-se lentamente até chegar à fervura; nesse momento a rã já está sofrendo um pouco dos efeitos da água aquecida e não terá condições de reagir, acabando por render-se à morte.

11.   Percepção e Filosofia. A percepção é fundamental na Teoria do Conhecimento. Esse ramo da filosofia estuda quatro condições do conhecimento: origem (ou fonte), possibilidade, natureza e formas.

11.1.A origem do conhecimento admite como geradoras dele ou a razão ou a experiência sensível. Os que aceitam a primeira são chamados de racionalistas. Os que aceitam a segunda são chamados pelos ingleses e seus seguidores de empiristas ou empiricistas, já os franceses o chamam de sensualistas. Poucos filósofos aceitam a existência das duas, com predomínio de uma ou da outra, conforme o caso. Os racionalistas acham que só a razão pode conhecer a realidade pois depende apenas de raciocínio, desconsiderando a experiência sensível pois, para ele nossos sentidos são enganosos. Na verdade nossos sentidos não são enganosos, cabe-nos saber separar a subjetividade do fato observado. Isso não é fácil, mas não impossível. Os empiristas ou sensualistas afirmam que mesmo que haja raciocínio, antes o conceito passou por nossos sentidos. Seguem a máxima de Aristóteles em sua forma latina: NIHIL EST IN INTELECTU QUOD NON FUERIT PRIUS IN SENSU: nada está na mente, que antes não tenha passado pelo sensório. Racionalistas e empiricistas, embora tenha divergências conceituais, acabam por concordar que o produto final da sensação passa pela subjetividade da percepção. Por isso, os racionalistas afirmam que nossos sentidos são enganosos. Na realidade a sensação não é enganosa. O que parece engano é apenas a interpretação subjetiva do objeto. Os empiricistas acham que o raciocínio é que nos engana. Na realidade, ambos dizem a mesma coisa usando metodologias divergentes.

11.2.Em relação à possibilidade do conhecimento os filósofos debatem-se entre ser possível o não. As posições extremas desse dualismo são marcadas pelos céticos, que não admitem nenhuma possibilidade do conhecimento e os dogmáticos, que julgam o conhecimento inquestionável. Julgamos que os céticos se formaram porque não souberam identificar o subjetivismo na percepção. Os dogmáticos, procuram ignorá-lo. Ambas as correntes não sabem conviver com o subjetivismo. Heráclito, filósofo pré-socrático já era cético. Na Filosofia Helenística (pós-socrática), apareceram as escolas dos céticos, dos cínicos e outras. No Romantismo, Nietzsche com seu Ceticismo cognitivo, ético e estético criou a bases para Counter-Culture da New Age dos anos 60. Kant afirmava que só podemos conhecer o fenômeno (aquilo que aparece), mas nunca o númeno (a coisa em si). Essa afirmação influenciou muito o filósofo Edmund Husserl (1859 – 1938) que afirmando que o conhecimento resultava de uma inteiração entre objeto e sujeito acabou por privilegiar o sujeito, criando o subjetivismo que tanto influenciou o Século XX, dando origem a ideologia do relativismo. Ambas influenciaram a filosofia Fenomenologia Existencial de Martin Heidegger (1889 - 1976), que foi a base ideológica do Mundo Ocidental até os anos 50 do Século XX. A partir da Década de 60 foi substituída pela Contra-Cultura da Nova Era.

11.3.A natureza do conhecimento discute justamente se ele está no objeto a ser conhecido (objetivismo) ou no sujeito que conhece (subjetivismo). É nesse item da filosofia que o estudo da influência do subjetivismo na percepção tem seu grande valor. As coisas existem por si mesmas, mas são percebidas idiograficamente de acordo o patrimônio de cada observador. Como conseqüência da má  avaliação da influência do subjetivismo na percepção, apareceram as ideologias que caracterizam bem a Contra-Cultura da Nova Era: subjetivismo, individualismo, relativismo, hedonismo, imediatismo.

11.4.Como formas de conhecimento são citadas a fé e a intuição. A revelação não é levada em conta. a) . Em Hebreus 11:1., o Apóstolo Paulo ensina que “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e prova das coisas que não se vêem”. O aluno para aprender alguma coisa tem que ter confiança em que lhe ensina. Se de tudo duvidar e exigir comprovação, torna-se cético, impenetrável pelo conhecimento.    b) Intuição (também chamada de insight ou Einsicht). É a percepção imediata (sem mediação do sensório) de um conteúdo cognitivo, afetivo ou volitivo, ou uma mescla deles. A aceitação da fé e da intuição como fontes de conhecimento e não formas depende do bom-senso, pois a falta desse nos leva a credulidade ou a incredulidade, que são faces da mesma moeda. c) Em relação à revelação como fonte de conhecimento é preciso de convicção religiosa, o que não discutiremos aqui. Só afirmamos para aquele que crê, o é. Também temos que ter cuidado com a credulidade ou a incredulidade: ambas são faces da mesma moeda.

12.   Conclusão. O mundo real existe independentemente de nossa subjetividade. Nós temos uma visão deturpada dele conforme nossa subjetividade. O relativismo, tão propalado como inquestionável, é fruto de nossa ignorância e imaturidade que ainda nos incapacitam de conhecer plenamente a verdade. À medida que aumentarmos nossos conhecimentos e amadurecermos afetivamente, saberemos separar a subjetividade percebida da objetividade real. Os conhecimentos cognitivo, afetivo, volitivo e instintivo, são possíveis, mas dependerão de nosso avanço, pois sua aquisição é gradativa e acumulativa: quanto mais conhecermos, mais capacidade teremos de aprender. O ceticismo é uma ideologia pessimista originária de observações imperfeitas de nossos mecanismos perceptivos e de conseqüências funestas, como testemunhamos a partir dos anos 60 com a Contra-cultura da Nova Era.

Nota: Este texto não sofreu revisão gramatical e digitálica.

 

 

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