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O Físico

Rio de Janeiro, 23 de abril de 2010

`A Editora ROCCO

Prezados Senhores

 

1.       Li o livro “O Físico”, de Noah Gordon, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Rio de Janeiro, Rocco, 1988”.

2.       Possui um conteúdo muito didático mostrando a situação do médico na Europa Medieval. A tradução está perfeita.

3.       Estranhamente, ouvi muitas críticas de pessoas mal informadas sobre a tradução do título “O Físico”. Elas acham que está errada, pois palavra do título do original em inglês é PHYSICIAN. Essa opinião está inteiramente errada e mostra que tais pessoas nada sabem sobre a História da Medicina e nem sobre a Idade Média, que seguia a tradição cultural greco-romana com a religiosidade cristã.

4.       Para entendermos melhor porque “physician” em inglês está corretamente traduzido por “físico” em português, temos que recordar a Idade Média.

5.       O período medieval herdou a tradição cultural greco-romana. Na Grécia antiga era desdenhoso o trabalho feito com as mãos. Somente os escravos ou camponeses é que podiam trabalhar assim. O médico grego só trabalhava com a palavra, nem examinava fisicamente o doente (apalpação, ausculta). A atividade médica que em outras culturas eram realizadas por médicos, na Grécia foi delegada a pessoas que já tinham o ofício manual, como cirurgia e odontologia pelos barbeiros açougueiros, a fabricação de medicamentos por pessoas incultas que trabalhavam com as mãos. Na versão original de do Juramento de Hipócrates, o médico comprometia-se a não fazer aborto e não tirar cálculos. O trabalho cirúrgico era comparado ao de aborteiro. Os que trabalhavam com as mãos eram os chirurgos (mão em grego).

6.       O Império romano absorveu a tradição cultural grega e essa se estendeu pela Idade Média. Nesse período, os preparadores de remédios criaram a Alquimia que resultou na Química e na Farmácia modernas. Mas, os trabalhos cirúrgicos e odontológicos continuaram nas mãos de artesãos. No Império Romano houve uma exceção, quando médicos, que cuidavam dos gladiadores feridos, realizavam atos cirúrgicos, a fim de preservá-los. Nessa época, os médicos romanos descobriram uma técnica de amputação de membros, que ficou desconhecida e só foi redescoberta durante a Primeira Guerra Mundial.

7.       Em todas as Civilizações Antigas e parte da Idade Média, o ensino da Medicina era através do discipulado. Quando foi instituído o ensino universitário, o candidato à carreira médica já deveria ter o título de “doctor” no “Trivium” ou no “Quadrivium”. Por isso, esse título, na maioria dos idiomas europeus, ficou como sinônimo de médico, mesmo que esse não tenha feito o doutorado. Consagrou-o o Direito Consuetudinário.

8.       O ensino universitário da Medicina, baseava-se nos livros de Aristóteles sobre a Natureza, com o título de “Physis”. Estudavam os animais, as plantas, os minerais, de onde eram tirados muitos dos medicamentos prescritos pelos médicos, embora fossem fabricados pelos alquimistas. Por essa razão, na Idade Média, a partir do ensino universitário da Medicina, médico passou a ser chamado de “physicus”. No inglês, foi criada a tradução de “physician”. Em português, ficou “físico”, mas hoje desusada. Com o aparecimento da profissão de fisco, a língua inglesa criou a palavra “physicist” e no português ficou “físico”, por essa palavra já ter perdido na língua falada o significado de médico.

9.       No Século XIX, os cirurgiões foram obrigados a fazer o curso de Medicina, merecendo serem chamados de doutor (doctor). Os dentistas em alguns países foram obrigados a fazerem o curso de Medicina ou foi criada uma profissão separada da Medicina, a Odontologia, o que ocorreu no Brasil, na Inglaterra, nos estados Unidos. Os alquimistas tiveram que fazer um curso universitário para poderem preparar remédios e essa profissão foi chamada de Farmácia.

10.   O romance “O Físico”, mostra que o rapaz, que era cirurgião-barbeiro, queria aprender Medicina mas, não tinha reputação. Precisou procurar a Escola de Isphan, onde a Medicina, no Império árabe (Pérsia), não fazia discriminação entre médicos e  cirurgiões. Nessa escola havia também a formação de enfermeiros, precedendo a pseudo-glória de Florence Nathingale.

11.   Na Inglaterra, a partir do Século XIX, a palavra “physician” ficou como sinônimo de médico clínico, “surgeon” (do grego “chirurgos”) para os cirurgiões e “doctor” como denominação geral para médicos. Pode haver pequenas alterações nos vários países de língua inglesa. Falaram-me que na Nova Zelândia, “physician” significa clínico especialista.