Home | Filosofia | Medicina | Política | Teologia | Filologia | Militarismo | Sobre o autor | Contato

 

 

 

 

Getúlio Vargas em Dois Mundos

 

 

Rio de Janeiro, 2 de novembro de 2000.A-021
Editora Opinião E. Ltda.
Prezado Senhor Editor

          Concluí a leitura do livro Getúlio Vargas
em Dois Mundos, 1A. Ed., Capivari, Opinião E., 1998, em 13 de outubro de 2000.

          Atribui-se na obra que a mesma foi psicografada pela médium paulista de Araraquara, Wanda A. Canutti, sob a inspiração de um Espírito que se intitula Eça de Queirós. Pelos comentários que há no final do livro, deduz-se que seja o conhecido escritor português.

          O livro é faccioso, pois tenta denegrir a imagem de Getúlio Vargas, criador do Estado de Bem-Estar Social no Brasil e reforçador do Estado Nacional Brasileiro, ao mesmo tempo, que procura atenuar a ação nefasta e traidora do jornalista Carlos Frederico de Werneck Lacerda, que, a serviço dos interesses do capital rapace apátrida, procurava obstruir a consecução das duas políticas acima no segundo mandato de Vargas [1950/1955]. Explico essa opinião pelos motivos abaixo mencionados:

          A autora não situa devidamente a Revolução de 30 no contexto histórico. Em 1910, quando o Marechal Hermes da Fonseca assumiu o cargo de presidente da República, tentou implantar a política de reforço ao Estado Nacional Brasileiro e a de Bem-Estar Social. Isso desagradou duplamente a plutocracia dos baronetes do café de São Paulo. Primeiro: um Estado Nacional forte contrariava os interesses imperialistas da oligarquia financeira internacional, a quem a aristocracia rural paulista prestava vassalagem, pois exportava para ela seu café e dela dependia a manutenção das ferrovias que escoavam sua produção. Em segundo lugar, um Estado de Bem-Estar Social lhe dificultaria a exploração da mão-de-obra operária. Essa aristocracia, a fim de manter-se no poder, atraiu para sua política os pecuaristas de Minas Gerais, fazendo um rodízio na presidência da República. Isso ficou conhecido pejorativamente por política do café-com-leite.

          Em 1930, Washington Luís, prevaricou esse acordo, elegendo o paulista Júlio Prestes. Minas uniu-se a outros estados que não aceitavam aquela política que visava apenas ao interesse financeiro da plutocracia paulista. Isso foi só o motivo, pois as verdadeiras causas estavam na insatisfação que obstruía o progresso do Brasil, impedindo a implantação do Estado de Bem-Estar Social e a fortalecimento do Estado Nacional Brasileiro com seu aprimoramento militar e a criação de indústrias básicas. Os baronetes do café só criavam indústrias de beneficiamento, deixando para a importação o material estratégico. Pelo gosto dessa burguesia paulista, o Brasil extrairia, exportaria e depois importaria o produto manufaturado pelas indústrias do capital rapace internacional. A Revolução de 30 acabou com essa festa. Em 1932, a plutocracia paulista, apoiada pelo capital internacional, pois havia uma força-tarefa americana em nossas costas, tentou abortar esse movimento patriótico. O Brasil inteiro apoiou o Governo Federal, pois distinguia perfeitamente a malevolência dos paulistas. São Paulo até hoje tenta justificar seu ato antipatriótico, alegando que lutava por uma constituição, mas sua agenda oculta atendia a outros interesses.

          O livro faz apenas um bosquejo histórico para mergulhar-se em um lirismo místico e piegas. O que ocorreu no Brasil, foi um reflexo da situação social e econômica mundial, pois em várias partes do mundo surgiram políticas de reforço do Estado Nacional e da criação do Estado de Bem-Estar Social. Apenas um exemplo: o New Deal de Franklin Roosevelt. John Mainard Keynes, economista paladino da política de concentração de renda nas mãos de poucos, entendeu a necessidade de criação de uma política de bem estar social conduzida pelo estado em detrimento da ganância financeira do mercado de seguros. Ele compreendeu que segurança social não poderia ser uma mercadoria bursátil. A omissão desses dados mais amplos induz o leitor a aceitar a versão infantil de que Getúlio desviara-se de sua missão por seu orgulho de ser ditador [p.62]. Isso é sofisma por enunciação imperfeita de dados.

          À p. 37, há outro sofisma por enunciação imperfeita de dados. Diz que Getúlio prendeu a esposa de Prestes e a enviou para a Alemanha, onde veio a morrer em um campo de concentração. Olga Benário nunca foi esposa de Prestes. Ela era uma judia nascida na Alemanha. Entrou para o Partido Comunista Alemão e, participando de atos terroristas, cometeu roubos, seqüestros e homicídios. Por esses crimes foi condenada. Conseguiu fugir para a União Soviética. Foi recrutada para vir ao Brasil como agente clandestino da subversão internacional e aqui implantar a revolução comunista preparada por outro agitador internacional, Harry Berger.  Como cover-story penetrou no Brasil com nome e passaporte falsos. Da farsa fazia parte passar-se como esposa de outro agitador de Moscou que também ingressou em nossa Pátria com nome e passaporte falsos. Esse agente subversivo veio a ser identificado mais tarde como o ex-capitão, expulso por insubordinação do Exército Brasileiro, Luis Carlos Prestes. Evidentemente, que surgiu fornicação entre os dois devido a terem que dormir juntos para manter a farsa da cover-story. Dessas fornicações a agente da subversão, Olga Benário, engravidou, mais tarde dando nascimento a Ana Leocádia Prestes. Ela foi enviada à Alemanha porque na época o Brasil possuía relações diplomáticas com esse país e tratado de extradição. Ela, como fugitiva da prisão onde cumpria pena pelos crimes acima citados, teve seu pedido de extradição feito pelo governo alemão e atendido pelo brasileiro. Ela também usava os codinomes de "Frida Leuschner", "Ana Baum de Revidor", Olga Sinek", Olga Berguer Vilar" e "Zarkovich". Em Moscou, era casada com B.P. Nikitin, aluno da academia Militar de Frunze. Do modo como a autora descreve esses fatos históricos, omitindo dados importantes, deixa transparecer que Getúlio enviou a esposa de Prestes para a Alemanha arbitrariamente, sem fundamentação jurídica. Sobre Olga Benário: Fernando Morais, Olga, 12A. Ed Rev., São Paulo, Alfa-Omega, 1985; William Waack, Camaradas, 1A. Impressão, São Paulo, Companhia das Letras, 1985. Suplemento Especial do Boletim de abril de 2001 do Clube Militar, p. 15.

          A partir do Capítulo 18, a autora começa a mencionar o personagem histórico Carlos Lacerda, justificando, já nos capítulos finais, sua ação antipatriótica contra o Estado Nacional Brasileiro e o Estado de Bem-Estar Social, que para isso arregimentava a burguesia brasileira entorno da UDN e do Brigadeiro Eduardo Gomes. Ela alega que mesmo em outra reencarnação teria sido destronado de seu pequeno reino pelo ambicioso Getúlio. Faz ainda descrições bem depreciativas da figura de Gregório Fortunato. Lacerda, na década de 30, fora um comunista que participara da intentona. Preso, etc., depois estranhamente bandeou-se para a extrema direita, defendendo com unhas e dentes os interesses do capital rapace apátrida. Seu perfil político era de um apátrida oportunista: a princípio do lado do internacionalismo comunista, depois do capital pirata. Em 1961, conseguiu a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que procurava extinguir a política da Reforma Capanema que pregava um ensino humanístico e uniforme, visando a fornecer ao Brasil pessoas com cultura geral e pensamento uniforme. A ideologia da reforma de Lacerda, obedecendo aos ditames externos, era acabar com a unidade de ensino, fortalecendo as diferenças regionais para mais facilmente facilitar a fragmentação do país. Por outro, lado implantou a mentalidade do ensino profissionalizante, nome eufêmico para ensino que visa a formar somente apertador de parafusos. Parece que ação nefasta de Lacerda era bem menos romântica que a descrita.

          À p. 172, a autora fala da vitória do Brasil após a Segunda Guerra Mundial e cita que com ela veio o anseio do povo pela redemocratização do país e a permanência de Getúlio no governo ameaçava esse desiderato. Para quem é testemunha da História, como já sou com a idade que tenho, não foi bem assim. Com a derrota da Alemanha e o conseqüente fim da guerra, o embaixador americano, Adolf Berle Junior, teve o desplante de anunciar, em entrevista coletiva dada à imprensa na sede da Associação Brasileira de Imprensa [Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1945], que o governo estadunidense "não apoiaria a permanência de Vargas no poder", uma vez que a presença deste à frente do Governo constituía-se num obstáculo à implementação da "Open Door Policy", discutida em Chapultepec. Tal fato provocou protestos do Itamarati junto aos Estados Unidos, provocando a retirada de Edward Barle Jr do cargo que ocupava no Brasil. A deposição de Getúlio, em 29 de outubro de 1945, foi mais uma quartela feita por oficias das Forças Armadas aliciados pelo embaixador americano. Entre eles estava o Brigadeiro Eduardo Gomes. Nas eleições seguintes, o apagado Ex-ministro da Guerra, Gen. Eurico Gaspar Dutra, teve uma vitória esmagadora sobre o moço bonito [na época] da UDN, Eduardo Gomes, somente porque recebeu apoio político de Getúlio. Isso é uma prova de que o povo brasileiro não estava tão insatisfeito com Vargas. De 1945 a 1950, todas as casas de pessoas do povo e lojas, vendas, botequins, apresentavam o retrato de Getúlio na sala principal. Foi grande o número de crianças batizadas com o nome de Getúlio. Em 1950, Getúlio voltou nos braços do povo e em 1954, a consternação foi geral. No final da década de 50, a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro tentou mudar o nome da Avenida Suburbana [hoje, Dom Helder Câmara] para 29 de outubro, provocando protestos populares. A deposição de Vargas em 1945 não refletiu romanticamente os anseios do povo por redemocratização, mas sim foi uma obra de fora que tinha por objetivo eliminar politicamente um líder que mantinha o Estado Nacional Brasileiro e o de Bem-Estar Social. O movimento popular, que ficou conhecido por "queremismo", desmente essas afirmações da autora.

           Não me parece que um Espírito de luz ditaria uma obra com tantas enunciações imperfeitas de dados, tendendo a facciosidade. Se isso é obra mediúnica deve ser fruto de um zombeteiro ou obsessor. O escritor Eça de Queiros, quando encarnado, tinha uma visão bem clara do que era uma política de bem-estar social e de Estado nacional. Forçosamente, teria feito um comentário maior.

          Mais um outro fator contra a provável influência mediúnica é a inoportunidade. Em 1994, quando Fernando Henrique, fundador do Diálogo Interamericano [Washington,1982] e do Consenso de Washington [1988], largou o Ministério da Fazenda para assumir o cargo de presidente da República, declarou clara e cinicamente que era para todos esquecerem o que até então escrevera [como socialista] e que iria terminar com as conquistas ultrapassadas [SIC] [o Estado de Bem-Estar Social e o Estado Nacional Soberano] da Era Vargas. Justamente isso que vem ocorrendo: esse traidor extinguiu todas as conquistas sociais criadas por Vargas e está entregando o Brasil ao saque feito pelo capital internacional. Um livro que denigre a imagem de Vargas e abranda a traição de Lacerda está facilitando o jogo sujo do Diálogo Interamericano e do Consenso de Washington. Não é crível que o Mundo Espiritual não tenha percebido esse despropósito.

          Só resta admitir que a autora tenha escrito este livro sobre encomenda da oligarquia paulista que ainda presta vassalagem ao capital internacional. Ela deveria abandonar o Espiritismo e voar de vez para o ninho dos tucanos.

 

Cordiais Saudações.