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Getúlio Vargas
Rio de
Janeiro, 2 de novembro de 2000.A-021
Editora Opinião E. Ltda.
Prezado Senhor Editor
Concluí a leitura
do livro Getúlio Vargas
Atribui-se na obra que a mesma foi psicografada pela médium paulista de
Araraquara, Wanda A. Canutti,
sob a inspiração de um Espírito que se intitula Eça
de Queirós. Pelos comentários que há no final do livro,
deduz-se que seja o conhecido escritor português.
O livro é faccioso, pois tenta denegrir a imagem de Getúlio
Vargas, criador do Estado de Bem-Estar Social no Brasil e reforçador do
Estado Nacional Brasileiro, ao mesmo tempo, que procura atenuar a ação
nefasta e traidora do jornalista Carlos Frederico de Werneck Lacerda, que, a
serviço dos interesses do capital rapace apátrida, procurava
obstruir a consecução das duas políticas acima no segundo
mandato de Vargas [1950/1955]. Explico essa opinião pelos motivos abaixo
mencionados:
A autora não situa devidamente a Revolução de 30 no
contexto histórico. Em 1910, quando o Marechal Hermes da Fonseca assumiu
o cargo de presidente da República, tentou implantar a política
de reforço ao Estado Nacional Brasileiro e a de Bem-Estar Social. Isso
desagradou duplamente a plutocracia dos baronetes do
café de São Paulo. Primeiro: um Estado Nacional forte contrariava
os interesses imperialistas da oligarquia financeira internacional, a quem a
aristocracia rural paulista prestava vassalagem, pois exportava para ela seu
café e dela dependia a manutenção das ferrovias que
escoavam sua produção. Em segundo lugar, um Estado de Bem-Estar
Social lhe dificultaria a exploração da mão-de-obra
operária. Essa aristocracia, a fim de manter-se no poder, atraiu para
sua política os pecuaristas de Minas Gerais, fazendo um rodízio
na presidência da República. Isso ficou conhecido pejorativamente
por política do café-com-leite.
Em 1930, Washington Luís, prevaricou esse acordo, elegendo o paulista
Júlio Prestes. Minas uniu-se a outros estados
que não aceitavam aquela política que visava apenas ao interesse
financeiro da plutocracia paulista. Isso foi só o motivo, pois as
verdadeiras causas estavam na insatisfação que obstruía o
progresso do Brasil, impedindo a implantação do Estado de
Bem-Estar Social e a fortalecimento do Estado Nacional Brasileiro com seu
aprimoramento militar e a criação de indústrias
básicas. Os baronetes do café só criavam indústrias
de beneficiamento, deixando para a importação o material
estratégico. Pelo gosto dessa burguesia paulista, o Brasil extrairia,
exportaria e depois importaria o produto manufaturado pelas indústrias
do capital rapace internacional. A Revolução de 30 acabou com
essa festa. Em
O livro faz apenas um bosquejo histórico para mergulhar-se em um lirismo
místico e piegas. O que ocorreu no Brasil, foi
um reflexo da situação social e econômica mundial, pois em
várias partes do mundo surgiram políticas de reforço do
Estado Nacional e da criação do Estado de Bem-Estar Social.
Apenas um exemplo: o New Deal de Franklin Roosevelt.
John Mainard Keynes, economista paladino da
política de concentração de renda nas mãos de
poucos, entendeu a necessidade de criação de uma política
de bem estar social conduzida pelo estado em detrimento da ganância
financeira do mercado de seguros. Ele compreendeu que segurança social
não poderia ser uma mercadoria bursátil.
A omissão desses dados mais amplos induz o leitor a aceitar a
versão infantil de que Getúlio desviara-se de sua missão
por seu orgulho de ser ditador [p.62]. Isso é sofisma por
enunciação imperfeita de dados.
À p. 37, há outro sofisma por enunciação imperfeita
de dados. Diz que Getúlio prendeu a esposa de Prestes e a enviou para a
Alemanha, onde veio a morrer em um campo de
concentração. Olga Benário nunca
foi esposa de Prestes. Ela era uma judia nascida na Alemanha. Entrou para o
Partido Comunista Alemão e, participando de atos terroristas, cometeu
roubos, seqüestros e homicídios. Por esses crimes foi condenada.
Conseguiu fugir para a União Soviética. Foi recrutada para vir ao
Brasil como agente clandestino da subversão internacional e aqui
implantar a revolução comunista preparada por outro agitador
internacional, Harry Berger. Como cover-story
penetrou no Brasil com nome e passaporte falsos. Da farsa fazia parte passar-se
como esposa de outro agitador de Moscou que também ingressou
A partir do Capítulo
À p.
Não me parece que um Espírito de luz ditaria uma obra com tantas
enunciações imperfeitas de dados, tendendo a facciosidade.
Se isso é obra mediúnica deve ser fruto de um zombeteiro ou
obsessor. O escritor Eça de Queiros, quando encarnado, tinha uma
visão bem clara do que era uma política de bem-estar social e de
Estado nacional. Forçosamente, teria feito um comentário maior.
Mais um outro fator contra a provável influência mediúnica é
a inoportunidade. Em 1994, quando Fernando Henrique,
fundador do Diálogo Interamericano [Washington,1982]
e do Consenso de Washington [1988], largou o Ministério da Fazenda para
assumir o cargo de presidente da República, declarou clara e cinicamente
que era para todos esquecerem o que até então escrevera [como
socialista] e que iria terminar com as conquistas ultrapassadas [SIC] [o Estado
de Bem-Estar Social e o Estado Nacional Soberano] da Era Vargas. Justamente
isso que vem ocorrendo: esse traidor extinguiu todas as conquistas sociais
criadas por Vargas e está entregando o Brasil ao saque feito pelo
capital internacional. Um livro que denigre a imagem de Vargas e abranda a
traição de Lacerda está facilitando o jogo sujo do Diálogo
Interamericano e do Consenso de Washington. Não é crível
que o Mundo Espiritual não tenha percebido esse despropósito.
Só resta admitir que a autora tenha escrito este livro sobre encomenda
da oligarquia paulista que ainda presta vassalagem ao capital internacional. Ela
deveria abandonar o Espiritismo e voar de vez para o ninho dos tucanos.
Cordiais Saudações.