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INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA

 

    O FAROL; ANO VII; nº 77; Edição Nacional; pg.7

    Rio de Janeiro, 15 de novembro de 2000.

   

    O Farol

    Ilmo. Sr. Redator

          Gostaria de fazer os comentários abaixo a respeito da matéria intitulada "Internacionalização???" Tal princípio não se aplica a Amazônia: é tese burra [O Farol; Ano VI; nº 71; Outubro de 2000; p. 4].

 

         COMENTÁRIOS:

         1. O autor ou é muito ingênuo ou fingiu ingenuidade ao não perceber que o jovem estava apresentando um sofisma por falso dilema. Ele deveria ter imediatamente classificado a pergunta como tal e acrescentado que ser brasileiro não é incompatível com ser humanista. Não há incompatibilidade entre patriotismo e humanismo.

         2. A ardileza da pergunta é de tal monta, que o inquisidor escolheu a palavra humanista que possui vários sentidos. Ela pode significar o adepto da ideologia do Renascimento, portanto significar adesão ao Classicismo; expressa também aquele que tem uma cosmovisão antropocêntrica; o seguidor das teorias psicológicas que apregoam a terapia centrada no doente e a aprendizagem centrada no aluno; e outros significados mais.

         3. Notamos que a pergunta queria identificar o conceito de humanista ao de entreguista. Nesse caso, realmente humanista é antônimo de patriota, sinônimo de traidor. Parece-nos que Cristóvão Buarque aceitou esse último significado e, travestindo-se de brasileiro, aceitou a internacionalização da Amazônia, estabelecendo analogias estapafúrdias.

         4. Um professor universitário sabe perfeitamente que o lema internacionalização dos patrimônios da humanidade é um cínico eufemismo para encobrir uma astúcia a fim de impedir o progresso dos países subdesenvolvidos e possibilitar o saque deles pelo capital rapace apátrida. Qualquer internacionalização no momento atual, resultará em monopólio pela oligarquia financeira internacional [The City londrina e Wall Street americana] em detrimento do bem estar do resto dos povos. As demais internacionalizações que ele defende, juntamente com a da Amazônia, deixariam as coisas como estão, isto é nas mãos infectas da plutocracia.

         5. Por fim, faz um comentário piegas sobre as criancinhas desvalidas. Qualquer pessoa de bom senso sabe que o abandono da infância é uma conseqüência da concentração de renda pelos países do primeiro mundo, o que seria agravado por qualquer internacionalização. Deixa claro também que só defende a permanência da Amazônia em nossas mãos como retaliação por ser tratado como brasileiro. Realmente, para que já defendeu a Internacional Socialista, deve ser amargo ser tratado como brasileiro. Como não há mais um bloco socialista a que obedecer, é melhor bandear-se para o lado mais forte do capital internacional.

        

             Transcrição do artigo de Cristóvão Buarque:

 

            "Internacionalização???" Tal princípio não se aplica a Amazônia: é tese burra.O Farol; Ano VI; nº 71; Outubro de 2000; p. 4 (Também publicado no jornal O GLOBO, Rio 23/10/2000)

Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

           De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia (1), podia imaginar a sua internacionalização, como também e tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.

             Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

           Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo e guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro e de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

             Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos o EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

            Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro, ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

              Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia, seja nossa. Só nossa.

              CRISTOVAM BUARQUE é professor da UNB, autor do livro "A cortina de ouro"