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JOSÉ SERRA
Rio de Janeiro, 17 de novembro de
2000.
Excelentíssimo Senhor
Ministro de Estado da Saúde.
Dr. José Serra
Os familiares de Fábio
Rocha receberam a carta nº 1809068631, assinada por Vossa
Excelência, dando ciência de que o SUS pagou o valor de HUM MIL
TREZENTOS E SETENTA-E-SETE REAIS E CINQÜENTA CENTAVOS [R$ 1.377,50] por
sua internação no Hospital Universitário Pedro Ernesto
para tratamento cirúrgico de hematoma sub-dural,
referente ao período de 24/04/2000 a 04/05/2000.
Informo, na condição
de ex-genro, que o paciente obteve alta hospitalar em 25/05/2000, por
óbito ocorrido às 02:30 horas, em decorrência de insuficiência
respiratória, pneumonia, AVE mais hematoma sub-dural,
conforme consta na Certidão de Óbito, Livro 57_AC de registro de
óbito, à folha 17071, do Registro Civil das Pessoas Naturais, 2A.
Circunscrição da 1ª Zona do Rio de Janeiro, Rua Santa Luzia
nº 206, Rio de Janeiro. Certidão passada aos 31 de maio de 2000;
que, logo após sua cirurgia, o paciente foi transferido para uma Unidade
de tratamento Intensivo [UTI].
Está claro que o SUS
não pagou por todo o período de sua internação,
pelo tratamento de todas as doenças que resultaram em sua morte e nem
por seu tratamento na UTI. Portanto, houve alguém ou algum
órgão que pagou pelo resto.
O senhor Fábio Rocha foi
motorista de caminhão e descontava para o Instituto de Aposentadoria e
Pensões dos Transportadores de Carga [IAPETEC], o que lhe asseguraria
uma aposentadoria digna e uma assistência decente à
saúde. ISSO HAVIA NA ERA
VARGAS! Em decorrência dessa política, que só se
preocupa com mercadorias bursátis em
detrimento do Estado de Bem-Estar Social, obedecendo aos ditames do Fundo Monetário Internacional, ao Diálogo
Interamericano [1982] e ao Consenso de Washington [1988], os institutos foram
gradativamente sendo extintos, resultando hodiernamente no INSS, que paga aposentadorias irrisórias aos trabalhadores, e
no SUS que nivelou a assistência à saúde por baixo.
Ele vinha padecendo já
há alguns meses e, devido à precariedade do sistema de
saúde, sua família estava com dificuldade de encontrar
internação para seu tratamento. No dia 28 de abril, foi
necessário recorrer a uma ambulância de um serviço
particular para transportá-lo a um nosocômio. Nesse momento, começou a via crucis dos familiares. O tempo necessário para
encontrar uma vaga hospitalar foi de duas horas. O Hospital de Bonsucesso,
antigo Hospital do IAPETEC a que teria direito se não tivesse aparecido
alguém querendo acabar com a ERA VARGAS, não tinha vaga.
Como sua filha, Noya Rocha da Silva Chaves, minha esposa, é
médica e eu também, conseguimos por intermédio de colegas
[pistolão] uma internação na emergência do
Hospital Municipal Salgado Filho [Méier]. Nesse hospital, o paciente ficou cerca
de quatro horas em cima de uma maca sem o tratamento conveniente, pois
não havia vagas nas enfermarias. Na ERA VARGAS, os hospitais dos
institutos tinham sempre vagas, porque a assistência sanitária era
decente. Como minha esposa é também médica emérita
do Hospital Universitário Pedro Ernesto, conseguiu novamente por
intermédio de colegas uma vaga nesse nosocômio, quando
então o paciente passou a ser atendido convenientemente. Devido à
extinção da ERA VARGAS, meu sogro esperou seis horas para
ser atendido e a família teve que desembolsar uma quantia para o
transporte em uma ambulância particular.
No tempo de Getúlio Vargas, a
família de um trabalhador jamais precisaria usar conhecimento para
interná-lo em um hospital, nem precisaria recorrer à
caríssima iniciativa privada, pois o Estado valorizava mais o bem-estar
do povo que o lucro dos investidores [mormente dos estrangeiros] nas bolsas;
havia também o SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA MÉDICO
DOMICILIAR DE URGÊNCIA [SAMDU] que atendia gratuitamente o paciente em
sua residência e o transportava para um nosocômio se fosse preciso.
É indigno que um trabalhador
precise ter filhos graduados em curso superior para conseguir um mínimo
de atendimento sanitário decente, através de conhecimento,
amizades e iniciativa privada. Isso não ocorreria na ERA VARGAS;
é fruto de uma política governamental que só se preocupa
com o lucro dos investidores estrangeiros [é sempre bom repetir].
Além de destruir o Estado de Bem-Estar Social, essa política
está extinguindo também o Estado Nacional Brasileiro ao
escancarar nossas portas para coisas supérfluas e bufarinhas
estrangeiras e, pior ainda, minando nossa indústria estratégica,
levando o país a uma situação de extrator de
matérias primas e importador de bens manufaturados. Isso é uma completa perda de
soberania. Para impedir uma reação patriótica, desencadeia
também uma campanha de desmoralização e sucateamento de
nossas Forças Armadas. Se essa nefanda atitude persistir, brevemente
teremos apenas uma gendarmaria, uma guarda costeira e
um serviço aéreo de busca e salvamento.
Os familiares de Fábio Rocha
são patriotas e não se renderão ao capital rapace
apátrida. Nas próximas eleições só
votarão em um candidato que seja patriota e prometa restabelecer a ERA
VARGAS, isto é: O ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL e O ESTADO NACIONAL
BRASILEIRO SOBERANO.
Enviarei cópia dessa carta para o Conselho Regional de Medicina
do Rio de Janeiro, para a Ordem do Advogados do Brasil, para a impressa que
ainda não esteja amestrada, para o Clube Naval,
Militar, da Aeronáutica, para demais familiares do Fábio
Rocha e para conhecidos.
Respeitosamente, cordiais saudações.