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CONSIDERAÇÕES SOBRE LIBERDADE
- A palavra
“liberdade” traduz o conceito de que cada indivíduo
pode fazer, expressar o que bem quiser. Esse conceito é
genérico, popular e se tornou tema filosófico entre os
herdeiros da civilização greco-romana, a partir do final da
Idade Média, com a Renascença, atingindo o clímax com
o Movimento Romântico, chegando à anarquia, à
dissolução dos costumes, à degeneração
ética com a “contra-cultura da Nova Era”, da famigerada
Década de 60 do Século XX. A década dos protestos, quando
as pessoas protestavam contra qualquer coisa, sem saber contra o que
estavam protestando: a hierarquia e tradição
passaram a serem risíveis; o trabalho confundido com opressão;
fraternidade em vez de ser solidariedade passou a ser promiscuidade;
defendia-se usufruto dos direitos sem o cumprimento dos deveres; e
o conceito de liberdade não admitia a responsabilidade
civil e criminal dos atos ou das omissões.
- O Ser humano é por
natureza um ser cultural e social. Não pode viver com plenitude
fora de uma sociedade e de uma cultura. Os hominídeos
“Australopitecos”, já tinham pés (com
função de fornecer base para a posição ortoestática),
mãos (habilidade para fabricar armas e ferramentas) e
ausência de dentes caninos grandes trespassados (o que não
servia como armas, tendo uma função mista de
perfuro-incisiva). Esses seres já não tinham armas naturais
de defesa e ataque: cascos, garras e caninos. Em
compensação, eles já possuíam um pouco de
inteligência abstrata e habilidade elementar com as mãos, o
que lhes permitia fabricarem rudimentos de armas e ferramentas (porro com
uma das extremidades afiadas e sílex e obsidiana lascada com bordas
cortantes). Essas deficiências obrigavam-nos a viverem em grupos,
pois o que faltava ou era pouco em algum, o outro tinha em melhores
condições. Isso facilitou que se humanizassem mais tarde no
Homo erectus e seguisse a escala humana. A “dependência”
do grupo tornou-se uma característica humana, o que mais tarde se
tornou em vida social e criou a cultura.
- Cada ser humano não
possui todas as habilidades de que necessita, por isso ele precisa de
companhia, de viver em sociedade, onde a deficiência dele é
suprida pela solidariedade de outrem. O Ser humano, por natureza,
não pode dispensar o concurso alheio. Isso não lhe permite a
fazer o que quiser. As implicações sócio-culturais o
impedem de agir a seu talante. Assim como ele depende de alguém,
outra pessoa depende dele. Ambas situações limitam sua
“liberdade” de agir. Ele só age de acordo com a
disponibilidade de quem ele dependa, como seu dependente lhe tolhe
também o agir. Como exemplo, podemos expor a alegoria de um cego
empurrando a cadeira de um paraplégico. A deficiência de uma
é compensada pela habilidade do outro. Mas ambos sozinhos sofreriam
muito mais.
- A pessoa amadurecida
afetivamente entende suas limitações e seus compromissos com
o restante da comunidade. Sabe que seu agir será limitado pelo
interesse comum. Seus direitos serão limitados pelos os dos outros,
assim como pelos seus próprios deveres. Ela compreenderá que
deverá responder por suas faltas, quer por ação, quer
por omissão, tendo que reparar o mal que causou a outrem ou ao
interesse comum ou pelo bem que deixou de fazer, quando o poderia.
Portanto, podemos afirmar que não há ninguém
totalmente independente (livre), assim como dependente. Vivemos
em uma faixa de interdependência, variando de um pouco de
dependência de outras pessoas até o dever que temos para com os
que de nós dependem, o que nos traz
limitações.
- Já podemos ter como um
dos critérios de sanidade mental a perfeita compreensão dessa
interdependência e saber com ela conviver sem conflitos e
sendo feliz.
- Já o inseguro
sente-se dependente e está sempre à procura de um guia, de
um orientador, para lhe mostrar o que é está
“certo” e o que está “errado”. Geralmente
tende ao misticismo, tendo sempre um mentor espiritual, um guia, um guru.
Para tudo que faz, precisa primeiro consultar seu mentor. Não
confia em si. Tem uma auto-estima baixa. Sempre que discute, se fundamenta
em que outras pessoas disseram, consideradas “puras” por ele.
Não sabem fundamentar o que diz, o que pratica, usando seu
próprio discernimento. Preocupa-se com que os outros acham dele.
Querem agradar a todos. Não sabem tomar uma atitude independente.
São os carneiros de “Panurgo”(1), as “vacas
de presépio”(2), as “Maria vai com as
outras”(3), os “politicamente corretos”. Acha que a verdade está
sempre com a maioria. Isso lhe tolhe a liberdade. Perde uma das
características humanas que é o discernimento entre o mal e
o bem, contando sempre com a orientação externa para
guiar-lhe a opinião e conduta. Vive sempre em conflito
consigo e o gerando com outras pessoas.
- Aquele que se julga
independente, que não precisa do concurso alheio, ou está
usando um mecanismo de defesa para encobrir sua insegurança ou
é paranóide. Não percebe suas fraquezas e a
necessidade de ser amparado por outrem. Geralmente, tendem a ser
“franco”, dissimulando rudeza; dizem que não ligam para
o que dele dizem ou pensam, sempre citando que Cristo não
conseguiu agradar a todos e por isso morreu crucificado. Igualmente ao
anterior, vive sempre em conflito consigo e o gerando com outras pessoas.
- O interdependente
conhece seus alcances e suas limitações. Sabe quando deve concordar com a
maioria e quando deve discordar, mantendo uma atitude independente.
Geralmente, faz isso com equilíbrio emocional, não gerando
conflito interno ou externo. Se, às vezes, o fizer, é de
pouca monta.
- Conclusão. A
liberdade absoluta, sem ser uma função da responsabilidade,
é uma quimera romântica. O cidadão verdadeiramente
livre cumpre primeiramente seus deveres, prima por sua responsabilidade e
está sempre preste a reparar o mal que tenha feito por
ação ou omissão ou pelo bem que deixou de fazer. A
VERDADEIRA SANIDADE MENTAL ESTÁ NO RECONHECIMENTO DE NOSSA
INTERDEPENDÊNCIA.
1) Carneiro de Panurgo: Parnurgo personagem do romance Pantagruel de
Rabelais. Usado depreciativamente para qualificar pessoas que só
orientam pela opinião alheia.
2) Vaca de presépio: popularmente usado com o mesmo significado acima.
3) Maria vai com as outras: idem.