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CONSIDERAÇÕES  SOBRE  LIBERDADE

 

  1. A palavra “liberdade” traduz o conceito de que cada indivíduo pode fazer, expressar o que bem quiser. Esse conceito é genérico, popular e se tornou tema filosófico entre os herdeiros da civilização greco-romana, a partir do final da Idade Média, com a Renascença, atingindo o clímax com o Movimento Romântico, chegando à anarquia, à dissolução dos costumes, à degeneração ética com a “contra-cultura da Nova Era”, da famigerada Década de 60 do Século XX. A década dos protestos, quando as pessoas protestavam contra qualquer coisa, sem saber contra o que estavam protestando: a hierarquia e tradição passaram a serem risíveis; o trabalho confundido com opressão; fraternidade em vez de ser solidariedade passou a ser promiscuidade; defendia-se usufruto dos direitos sem o cumprimento dos deveres; e o conceito de liberdade não admitia a responsabilidade civil e criminal dos atos ou das omissões.
  2. O Ser humano é por natureza um ser cultural e social. Não pode viver com plenitude fora de uma sociedade e de uma cultura. Os hominídeos “Australopitecos”, já tinham pés (com função de fornecer base para a posição ortoestática), mãos (habilidade para fabricar armas e ferramentas) e ausência de dentes caninos grandes trespassados (o que não servia como armas, tendo uma função mista de perfuro-incisiva). Esses seres já não tinham armas naturais de defesa e ataque: cascos, garras e caninos. Em compensação, eles já possuíam um pouco de inteligência abstrata e habilidade elementar com as mãos, o que lhes permitia fabricarem rudimentos de armas e ferramentas (porro com uma das extremidades afiadas e sílex e obsidiana lascada com bordas cortantes). Essas deficiências obrigavam-nos a viverem em grupos, pois o que faltava ou era pouco em algum, o outro tinha em melhores condições. Isso facilitou que se humanizassem mais tarde no Homo erectus e seguisse a escala humana. A “dependência” do grupo tornou-se uma característica humana, o que mais tarde se tornou em vida social e criou a cultura.
  3. Cada ser humano não possui todas as habilidades de que necessita, por isso ele precisa de companhia, de viver em sociedade, onde a deficiência dele é suprida pela solidariedade de outrem. O Ser humano, por natureza, não pode dispensar o concurso alheio. Isso não lhe permite a fazer o que quiser. As implicações sócio-culturais o impedem de agir a seu talante. Assim como ele depende de alguém, outra pessoa depende dele. Ambas situações limitam sua “liberdade” de agir. Ele só age de acordo com a disponibilidade de quem ele dependa, como seu dependente lhe tolhe também o agir. Como exemplo, podemos expor a alegoria de um cego empurrando a cadeira de um paraplégico. A deficiência de uma é compensada pela habilidade do outro. Mas ambos sozinhos sofreriam muito mais.
  4. A pessoa amadurecida afetivamente entende suas limitações e seus compromissos com o restante da comunidade. Sabe que seu agir será limitado pelo interesse comum. Seus direitos serão limitados pelos os dos outros, assim como pelos seus próprios deveres. Ela compreenderá que deverá responder por suas faltas, quer por ação, quer por omissão, tendo que reparar o mal que causou a outrem ou ao interesse comum ou pelo bem que deixou de fazer, quando o poderia. Portanto, podemos afirmar que não há ninguém totalmente independente (livre), assim como dependente. Vivemos em uma faixa de interdependência, variando de um pouco de dependência de outras pessoas até o dever que temos para com os que de nós dependem, o que nos traz limitações. 
  5. Já podemos ter como um dos critérios de sanidade mental a perfeita compreensão dessa interdependência e saber com ela conviver sem conflitos e sendo feliz.
  6. Já o inseguro sente-se dependente e está sempre à procura de um guia, de um orientador, para lhe mostrar o que é está “certo” e o que está “errado”. Geralmente tende ao misticismo, tendo sempre um mentor espiritual, um guia, um guru. Para tudo que faz, precisa primeiro consultar seu mentor. Não confia em si. Tem uma auto-estima baixa. Sempre que discute, se fundamenta em que outras pessoas disseram, consideradas “puras” por ele. Não sabem fundamentar o que diz, o que pratica, usando seu próprio discernimento. Preocupa-se com que os outros acham dele. Querem agradar a todos. Não sabem tomar uma atitude independente. São os carneiros de “Panurgo”(1), as “vacas de presépio”(2), as “Maria vai com as outras”(3), os “politicamente corretos”.  Acha que a verdade está sempre com a maioria. Isso lhe tolhe a liberdade. Perde uma das características humanas que é o discernimento entre o mal e o bem, contando sempre com a orientação externa para guiar-lhe a opinião e conduta. Vive sempre em conflito consigo e o gerando com outras pessoas.
  7. Aquele que se julga independente, que não precisa do concurso alheio, ou está usando um mecanismo de defesa para encobrir sua insegurança ou é paranóide. Não percebe suas fraquezas e a necessidade de ser amparado por outrem. Geralmente, tendem a ser “franco”, dissimulando rudeza; dizem que não ligam para o que dele dizem ou pensam, sempre citando que Cristo não conseguiu agradar a todos e por isso morreu crucificado. Igualmente ao anterior, vive sempre em conflito consigo e o gerando com outras pessoas.
  8. O interdependente conhece seus alcances e suas limitações.  Sabe quando deve concordar com a maioria e quando deve discordar, mantendo uma atitude independente. Geralmente, faz isso com equilíbrio emocional, não gerando conflito interno ou externo. Se, às vezes, o fizer, é de pouca monta.
  9. Conclusão. A liberdade absoluta, sem ser uma função da responsabilidade, é uma quimera romântica. O cidadão verdadeiramente livre cumpre primeiramente seus deveres, prima por sua responsabilidade e está sempre preste a reparar o mal que tenha feito por ação ou omissão ou pelo bem que deixou de fazer. A VERDADEIRA SANIDADE MENTAL ESTÁ NO RECONHECIMENTO DE NOSSA INTERDEPENDÊNCIA.

1)      Carneiro de Panurgo: Parnurgo personagem do romance Pantagruel de Rabelais. Usado depreciativamente para qualificar pessoas que só orientam pela opinião alheia.

2)      Vaca de presépio: popularmente usado com o mesmo significado acima.

3)      Maria vai com as outras: idem.