CRITÉRIOS PARA AVALIAÇÃO DE UMA MENSAGEM MEDIÚNICA.
“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.” Primeira de Epístola de São João, Capítulo IV, versículo 1.
1. A Editora Dufaux, de Belo Horizonte, lançou o livro mediúnico “Novas Utopias”, psicografado pelo médium Carlos Pereira, ditado pelo Espírito que se intitula Dom Helder Câmara, Ex- arcebispo de Olinda e Recife.
2. É esperado que uma obra dessa natureza provoque certo regozijo no Movimento Espírita Brasileiro, pois mostra que um ex-prelado católico confirma um aspecto da Doutrina Espírita – a mediunidade.
3. Mas, como nos alerta São João, não devemos crer em todos os espíritos, sem antes verificar se eles vêm de Deus. É bom lembrar o ditado que diz: “O diabo também cita a Bíblia”, isso significa que entidades malévolas podem nos enganar com palavras eufêmicas e citações sagradas.
4. Allan Kardec expõe com muita clareza os critérios que devem ser usados para aceitação de uma mensagem mediúnica como verdadeira. Isto está exposto extensivamente na “Introdução” do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, item “II – AUTORIDADE DA DOUTRINA ESPÍRITA (subtítulo em negrito, Controle Universal do ensino dos Espíritos)”. Nossas citações serão da tradução para o português da Ed 123ª, da Federação Espírita Brasileira, 2004, da pg. 30 (final) à pg. 33 (primeiro parágrafo). O Capítulo 21, item 10 (pg. 326) do livro citado acima. Embora tenhamos adjetivado essa exposição de extensiva, é em “O Livro dos Médiuns”, que Kardec aprofunda mais esses critérios. Como esse texto é breve, só faremos referência aos Capítulos principais desse outro livro, todos de sua Segunda Parte: Cap. XVII Da formação dos médiuns, Cap.XVIII Dos inconvenientes e perigos da mediunidade, Cap. XIX Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas, Cap. XX Da influência moral dos médiuns, Cap. XXI Da influência do meio, Cap. XXIV Da identidade dos Espíritos e Cap. XXVIII Do charlatanismo e do embuste. – Médiuns interesseiros. – Fraudes espíritas. Para uma leitura mais rápida e específica recomendamos ler diretamente os itens 267 (Reconhecimento da qualidade dos Espíritos), 269 (Das Evocações), 296 (Avaliação das descrições pela concordância), 301 (Respostas contraditórias) e 302 (Avaliação doutrinária e causas das contradições) Referência: LM: 60ª Ed, Brasília, FEB, 1993.
5. Kardec estipulou cinco critérios para avaliação da veracidade de uma comunicação mediúnica: 1) Espontaneidade, 2) Pluralidade espacial, 3) Sincronia temporal, 4) Concordância ideológica e 5) Racionalidade.
5.1. Espontaneidade. A comunicação tem que aparecer espontaneamente por parte dos Espíritos. Não pode decorrer de uma resposta (respostas) a perguntas feitas através de uma evocação. Não sabemos se o livro em apreço, resultou ou não de uma evocação ou se foi dado espontaneamente.
5.2. Pluralidade espacial. Essa mensagem deve ser dada espontaneamente a vários médiuns que não se conheçam e que vivam em lugares diferentes, a fim de evitar a contaminação por contigüidade espacial.
5.3. Sincronia temporal. Todas elas devem aparecer ao mesmo tempo, a fim de evitar a contaminação por seqüência temporal.
5.4. Concordância ideológica. As mensagens devem concordar materialmente, podendo haver pequenas discordâncias formais.
5.5. Racionalidade. O teor das mensagens deve passar pelo crivo da razão do encarnado, a fim de averiguar se é racional ou não para sua aceitação.
6. Não podemos opinar sobre o critério da espontaneidade, pois não lemos o livro e não sabemos como é descrita a captação da mensagem mediúnica.
7. Não houve a pluralidade espacial. A mensagem foi recebida por um único médium, ditada por um único espírito e ocorrida em um mesmo local (onde o médium sempre se encontrava).
8. Não houve sincronia temporal, pois sendo um único médium e um único espírito, não há com o que sincronizar temporalmente. Para que haja sincronia ou seqüência, deve haver no mínimo dois eventos, para que possamos averiguar se ocorreram ao mesmo tempo ou em momentos subseqüentes.
9. Não podemos averiguar se houver concordância ideológica, pelos mesmos motivos citados nos itens 7 e 8.
10. Resta-nos avaliar se há racionalidade. Temos que averiguar sete critérios: 1) idoneidade moral do médium; 2) ingenuidade ou não do médium; 3) conhecimento doutrinário do médium; 4) idoneidade do espírito comunicante e dados de sua biografia; 5) qual a vantagem que essa mensagem traz para o Espiritismo e para Humanidade de modo geral? 6) pode prejudicar o interesse de outras doutrinas ou criar conflitos com elas?
10.1. Não conhecemos esse médium. Portanto não podemos averiguar sua idoneidade moral.
10.2. Há pessoas ingênuas, crédulas, que aceitam como válidas qualquer comunicação mediúnica. Pelo mesmo motivo acima (item 10.1), não sabemos se esse médium é ingênuo ou não.
10.3. É preciso saber se o médium tem conhecimento profundo da Doutrina revelada pelos Espíritos e codificada por Allan Kardec. Precisamos notar que outros credos aceitam a mediunidade, mas de modo diferente do Espiritismo. Uma mensagem mediúnica só tem valor para os espíritas se estiver acorde com a Codificação Kardequiana. Por não conhecermos esse médium, não podemos avaliar esse quesito.
10.4. Dom Helder Câmara era uma figura de projeção internacional, porém um pouco polêmica. Na década de 30 foi integralista exaltado, dando apoio à tentativa de golpe de Plínio Salgado, em 1937, o que ensejou Getúlio Vargas a decretar o Estado Novo. Depois se passou para esquerda, formando a galeria de “padres progressistas”. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, que ele ajudou a formar, substituindo o cardinalato no Brasil, às vezes, toma posição política, como o apoio que, alguns bispos, já deram a Teologia da Libertação, misturando as coisas de César com as de Deus. Basta lembrar a intervenção de Dom Evaristo Arns apoiando os seqüestradores de Abílio Diniz! Devemos lembrar do ditado que diz “O diabo também cita a Bíblia”, querendo mostrar que palavras enganam as verdadeiras intenções malévolas. Outro diz “O diabo tem muitas artimanhas”, querendo alertar para que as pessoas mal intencionadas podem enganar as ingênuas através de suas astúcias.
10.5. Para o Espiritismo mensagens de tal teor têm valor propagandístico (marketing), mas precisamos ficar atentos para diferenciar o que divulga a Doutrina e o que a vulgariza. A vulgarização da doutrina é nociva para ela. Divulguemo-la, sem vulgarizá-la.
10.6. Prejudicar o Catolicismo? Achamos que não. Mas, tal livro não agradará a muitos católicos, podendo acirrar os ânimos, em vez de atrair a simpatia deles para Doutrina
11. Conclusão. Achamos que tal mensagem mediúnica apresentada em forma de livro é inadequada para a divulgação da Doutrina por não satisfazer as condições expostas nos itens 7., 8., 10.4., 10.5., 10.6..
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