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MEDICINA & SAÚDE (Coluna de Glorinha Cohen)
A MORTE E O MORRER - DR. JOSÉ CÁSSIO SIMÕES VIEIRA
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Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP (1960). Título de Especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e Associação Médica Brasileira. Ex- Prof. Instrutor da Faculdade de Ciência Médicas da Santa Casa de São Paulo (1986/1994). Ex- Prof. Auxiliar de Ensino da Faculdade de Medicina do ABC (1994/2008). Titular do Serviço de Psiquiatria do Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
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Antigamente, o paciente em fase terminal, morria lentamente em sua própria casa, onde tinha tempo para despedir-se e passar seus últimos momentos com os familiares. O morrer, com o desenvolvimento científico, tornou-se mais solitário e desumano.
Geralmente o doente é confinado em um hospital, estando as pessoas mais preocupadas com o funcionamento de seus órgãos e não com o ser humano que há nele, muitas vezes sofrendo mais emocionalmente que fisicamente. Era mais fácil elaborar a morte, já que a crença religiosa acreditava que o sofrimento na terra seria recompensado no céu, oferecendo esperança e sentido ao sofrimento, ao contrário do materialismo da sociedade moderna, que aumenta a ansiedade , obrigando-nos a fugir da realidade e do confronto com a nossa própria morte.
O estudante de medicina é preparado a prolongar a vida e promover a cura. Face ao paciente terminal, ele confronta-se com seus limites, impotências e incapacidades, gerando muita raiva e culpa, que pode resultar em negação e evasão, abandonando o paciente na hora em que ele mais precisa. Nesta etapa de evolução da doença, cabe ao médico não mais a cura, mas o assistir, servir, ajudar e cuidar.
O paciente tem o direito de saber ou não o seu diagnóstico, cabendo ao médico perceber o momento em que o paciente está pronto a receber este diagnóstico. Deve o médico informar de forma que mantenha a esperança do paciente, comunicando-lhe que nem tudo está perdido, é uma batalha que devem travar juntos, não importando o resultado final.
A consciência de seu estado permite ao paciente desabafar seus medos, resolver questões pendentes, despedir-se e ficar em paz consigo mesmo e com seus familiares para uma morte mais tranqüila e humana.
Segundo KLÜBLER ROSS um paciente em estágio terminal pode passar por cinco fases:
Negação: ajuda a aliviar o impacto da notícia, servindo como uma defesa necessária a seu equilíbrio. Ocorre, geralmente, em pacientes informados abrupta, fria e prematuramente. O médico deve respeitar tal mecanismo de defesa, porém ter o cuidado de não estimular, compactuar ou reforçar a negação, levando a pessoa a negligenciar o tratamento.
Raiva: o paciente já assimilou seu diagnóstico e prognóstico, mas se revolta por ter sido escolhido. Tenta arranjar um culpado por sua condenação. Geralmente se mostra muito queixoso e exigente, procurando ter certeza de não estar sendo esquecido, reclamando atenção, talvez como último brado: "Não esqueçam de que ainda estou vivo!" Nesta fase deve-se tentar compreender o momento emocional do paciente, dando espaço para que ele expresse seus sentimentos, não tomando as explosões de humor como agressões pessoais.
Negociação: tentativa de negociar o prazo de sua morte, através de promessas e orações. A pessoa já aceita o fato, mas tenta adiá-lo. Deve-se respeitar e ajudar o paciente.
Depressão: aceita o fim próximo, fazendo uma revisão da vida, mostrando-se quieto e pensativo. É um instrumento na preparação da perda iminente, facilitando o estado de aceitação. Neste momento, as pessoas que o acompanham devem procurar ficar próximas e em silêncio.
Cabe ressaltar que o termo "depressão" não está sendo utilizado aqui para designar a doença depressiva, conforme descrita na Classificação Internacional de Doenças, mas uma reação compreensiva e penetrável psicologicamente.
Aceitação: a pessoa espera a evolução natural de sua doença. Poderá ter alguma esperança de sobreviver, mas não há angústia e sim paz e tranqüilidade. Procura terminar o que deixou pela metade, fazer suas despedidas e se preparar para morrer.
São fatores que dificultam a aceitação da morte:
Desequilíbrio financeiro que o tratamento da doença ou a falta daquela pessoa podem acarretar à família.
Dificuldade da pessoa em aceitar cuidados, quando esta estiver acostumada com o cuidar dos demais.
História e elaboração de perdas anteriores e crenças com relação a morte.
Momento em que a morte ocorre no ciclo da vida, quanto mais jovem for o paciente, mais difícil será a aceitação de sua morte.
A morte súbita impede os familiares de elaborarem gradativamente o luto, ao contrário da morte já prevista naquele caso.
A fim de colaborar com paciente e seus familiares o médico pode:
Ajudar a pessoa a enfrentar a crise, auxiliando-a a expressar seus sentimentos.
Ajudar a pessoa a descobrir os fatos, desmistificando fantasias e esclarecendo suas dúvidas, evitando especulações sobre a doença.
Não dar a pessoa uma falsa confiança, oferecendo ajuda e reconhecendo a validade de seus temores.
Não encorajar a pessoa a culpar as outras.
Ajudá-la a aceitar ajuda.
Incentivar e sugerir uma reorganização das tarefas cotidianas, para que a pessoa receba assistência.